Valores para viver em sociedade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de março de 2012
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
Em uma sociedade onde se vive praticamente em função do tempo, parar para refletir sobre os próprios valores é uma tarefa esquecida entre muitos. As consequências disso, além de refletir na maneira com que as pessoas têm se relacionado, dão abertura para um processo ainda mais difícil: a construção do senso moral dos próprios filhos.
Essa análise é feita por Elsie Silva, psicóloga clínica e mestre em Psicologia da Personalidade, que atua em Londrina. Segundo ela, devido a tamanha diversidade cultural vivida hoje em dia, as pessoas precisam estar bem preparadas para lidar com ela. E esse aprendizado possui dois caminhos: a construção de valores na infância e a maneira com que enxergamos o outro.
''Temos que compreender que a realidade mudou. Hoje, não vivemos só em família, mas uma globalização. Portanto, há uma necessidade de olhar para as pessoas de uma maneira ampla, considerando a cultura, a origem e a história de vida delas. Só assim, vamos conseguir viver em sociedade e desconstruir os preconceitos negativos'', afirma.
A razão desse comportamento ''individualista'' é, segundo Elsie, a posição crítica e cristalizada que desenvolvemos ao longo da vida diante de questões que consideramos estar fora do padrão estabelecido. Por isso, há uma dificuldade muito grande em aceitar as diferenças. ''Nós só capacitamos as pessoas a mudarem alguma postura quando possibilitamos a elas uma reflexão'', acrescenta.
Senso
Para mudar essa realidade, a psicóloga explica que os valores devem ser construídos no ambiente familiar e escolar, desde os primeiros anos de vida, visando desenvolver o senso moral na criança. Estudos recentes apontam que com quatro, cinco anos, a criança começa a desenvolver o sentido entre o que ela quer e o que ela pode. ''A partir daí, ela passa a entender as regras e a desenvolver uma sensibilidade moral'', completa.
Aos oito, nove anos, a criança passa, através da figura paterna ou dos cuidadores, a desenvolver o apego, o amor e a empatia, que é o ponto de partida. Para a especialista, a partir da empatia, a criança vai perceber o sentimento do próximo e passar a ter uma ação que beneficie os outros. ''É a ausência desse valor que justifica alguns comportamentos dentro da escola, como por exemplo, tomar o brinquedinho do amigo ou colocar um apelido nele'', diz.
Cotidiano
Mas de que forma trabalhar isso? Para Elsie, é uma construção dinâmica, que começa com o exemplo dado pelas pessoas com quem a criança convive. ''Em casa por exemplo, se eu vejo que você está com dor, vou pegar um copo de água com remédio para te ajudar e isso já é uma ação minha que beneficia você, independente de eu estar querendo assistir televisão. Com atitudes assim, a criança vai assimilando a empatia'', explica ela, ao citar que os pais também podem aproveitar situações cotidianas para falar sobre os valores.
Segundo a psicóloga, os conceitos importantes são justiça, dignidade, generosidade, empatia, tolerância e altruísmo. ''São valores que fazem com que a criança, ao longo do tempo, desenvolva um senso moral que ela irá usar por toda a vida. E aí começa a existir o respeito, uma facilidade para viver em sociedade, uma visão cultural maior, que possibilita as inclusões, diminua opressão, a marginalização, a discriminação e o bulling'', ressalta.
Também é preciso ter tempo para os filhos e dar oportunidade para que eles conheçam diferentes realidades. Mas esse papel não cabe só aos pais. A escola tem que fazer com que as crianças aprendam não só o conteúdo sistemático, mas desenvolvam uma inteligência emocional, avaliando entre o certo e o errado. ''As pessoas devem entender que isso tem que ser construído sempre. É uma transmissão. São sementinhas que tem que ser plantadas e regadas ao longo do desenvolvimento dos filhos'', completa.


