Vale-pedágio divide caminhoneiros
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de maio de 2000
Lino Ramos 
Os caminhoneiros já mostraram sua força duas vezes recentemente. E se por um lado os movimentos serviram para elevar a auto-estima da categoria, por outro, acabaram estimulando rachas entre os líderes. Uma semana após o término da segunda greve nacional, entidades que buscam representatividade se mostram divididas sobre o resultado da paralisação, que durou seis dias e gerou problemas ao País na distribuição de combustíveis e hortifrutigranjeiros. Em Londrina os preços de algumas frutas tiveram reajuste de até 50% em razão da greve. Após a manifestação, o presidente do Sindicato dos Caminhoneiros Autônomos do Norte do Paraná (Sindicam), Murilo Gonçalves, foi destituído do cargo em assembléia.
Nélio Botelho, do Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC), acusa o governo federal de ter feito um acordo com pessoas que não representam a categoria. A paralisação só foi encerrada na base da violência, como na época da ditadura, reclamou. Segundo ele a greve foi interrompida para preservar a integridade física dos caminhoneiros, após uma assembléia de emergência em Três Cachoeiras, no Rio Grande do Sul.
Na opinião de Botelho o vale-pedágio criado pelo governo não vai funcionar e durante 60 dias o movimento estará em estado de greve, uma trégua para avaliar quais serão os reflexos da medida provisória (MP) que entrou em vigor na sexta-feira. O item pedágio pesa 60% na pauta e se não foi negociado vai comprometer nossas reivindicações. Esses 60 dias são para mostrar que o vale-pedágio não vai funcionar. Nélio Botelho calcula que o Movimento União Brasil-Caminhoneiro representa 99% da categoria.
Mas Diumar Bueno, presidente do Sindicam do Paraná e da Federação Nacional dos Transportadores Autônomos de Bens (Fenacam), um dos responsáveis pela negociação com o governo federal, afirma que a federação existe há 10 anos e na semana passada reuniu diversas entidades durante as negociações com o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha. Quem reuniu 53 entidades em Brasília para negociar com o governo? Cadê a entidade deles para atender aos caminhoneiros?, pergunta. Bueno calcula que existem de 800 mil a um milhão de caminhoneiros no País (118 mil são do Paraná) e que a Fenacam representa mais de 90% da categoria.
O presidente da federação disse que a greve foi constituída de movimentos isolados, que não reuniram 10% da categoria, ao contrário do movimento do ano passado, quando houve adesão de 80% dos caminhoneiros do País. Neste ano o movimento ocorreu em forma de pressão. Acredito que a grande maioria das pessoas não tinha nada a ver com os caminhoneiros. Eram pessoas que estavam preocupadas com as medidas que estavam para serem baixadas, acusou.
Diumar Bueno entende que o vale-pedágio foi a melhor proposta surgida até agora em benefício dos caminhoneiros. Convoco as lideranças para fazer cumprir esse direito. Agora quero ver essas lideranças lutarem pelos caminhoneiros, desafia. Na próxima quinta-feira a Fenacam deverá se reunir novamente com o ministro Eliseu Padilha. Bueno prefere manter a pauta do encontro em sigilo, mas afirma que os caminhoneiros poderão ter novos benefícios
o ex-presidente do Sindicam de Londrina, Murilo Gonçalves, reclama da briga entre as lideranças e acredita que foi destituído do cargo por defender a liberação de veículos com cargas perecíveis. Há quatro anos à frente do sindicato, ele também foi contrário à retenção de caminhões à força durante a paralisação. Têm lideranças brigando pelo poder. Imagino se eles se unissem se fortalecessem. A greve não adiantou nada e só favoreceu as concessionárias, reclama.
Gonçalves afirma que o dono da carga irá descontar o valor do pedágio no preço do frete. Segundo ele, no início da semana passada o preço de um frete de Londrina à Paranaguá que estava em média em R$ 28 por tonelada caiu para R$ 21. O ex-presidente do Sindicato não pretende mais se envolver em manifestações, apesar de continuar defendendo a categoria dos cainhoneiros.
Carlos Roberto Dellarosa, eleito no último dia 8 para substituir Murilo Gonçalves, acredita que a viabilidade do vale-pedágio irá depender da pressão da categoria sobre as transportadoras. A greve em Londrina serviu de modelo. Foi a única cidade onde não houve violência de policiais e apoio de outras entidades. Agora vai depender do sindicato pressionar as transportadoras a não abaixar o frete. Mas, segundo ele, na sexta-feira o preço do frete já havia caído 10% em média. Dellarosa alega que durante a greve em Londrina os caminhoneiros ficaram parados de livre e espontânea vontade.
A MP editada pelo governo entrou em vigor na sexta-feira e prevê que os donos de carga devem pagar as despesas do pedágio nas rodovias federais estaduais e municipais. Não haverá fiscalização, mas os caminhoneiros do País poderão fazer denúncias na Polícia Federal ou no Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER). A multa para quem não respeitar a medida é de R$ 10,6 mil.


