Rosto conhecido em todos os cantos de Londrina, o carroceiro Valdomiro Anacleto Gomes, 65 anos, ganha a vida recolhendo papéis, latinhas, plásticos, roçando e cuidando de jardins pela cidade. Data para carpir é o que não falta ao mineiro de Mercês do Araçai, que chegou em terras vermelhas aos 12 anos.
Mas tão famoso quanto ele são a sua carroça e seus cachorros, que sempre são vistos pegando uma carona no lombo da Boneca, a égua que acompanha o trabalhador em suas andanças há 16 anos. Descansando na carroça, a cadela branca, meio-sangue poodle, batizada de Belinha, é uma das que mais auxilia Valdomiro no dia a dia. ''Ela ajuda a catar papel, latinha. Entrega caixas de papelão na minha mão'', conta o carroceiro.
O marronzinho Beethoven, mais conhecido como Ronaldinho, - ''porque ele joga bola'', justifica Valdomiro -, é o mais elegante entre os cães. Está sempre usando óculos, empoleirado no dorso da Boneca. Já o mais novo integrante da turma, o magrelo Pirulito, recebeu este nome em homenagem a um outro cão, um dos preferidos do carroceiro, que morreu. Juntos, os cinco amigos perambulam pelos bairros, de segunda a sábado, das cinco horas da manhã até as seis da tarde. ''Eles conversam comigo e até dão risada quando eu peço.''
''Costumo acordar às 4h30 porque tenho que levar a menina para a escola'', diz Valdomiro. A menina a que se refere é a filha caçula, Ana Paula, de 13 anos, fruto do segundo casamento do autônomo, que tem outros quatro filhos e seis netos da primeira união. ''A gente sempre se encontra, eu vou na casa deles, eles vêm na minha casa. A gente combina muito bem, só não combina para morar junto'', confessa.
O carroceiro não tem cliente fixo, por isso a renda mensal não passa de R$ 150. A esposa é doente e fica cuidando da casa, e a responsabilidade de colocar comida na mesa é toda dele. ''Almoço e janto de uma vez só'', brinca Valdomiro, explicando por que não pára nem para almoçar. ''Tem que trabalhar para garantir os estudos da menina.''
Antes de trabalhar nas ruas, o carroceiro já foi vigia, funcionário registrado de cooperativa e até sem-terra. ''Fiquei uns oito anos morando em Ortigueira com os sem-terra. Tinha um sítio de 16 alqueires que eu vendi porque a minha filha, na época com três anos, pediu que mudasse para a cidade para ela poder ir para a escola'', recorda.
Ele trocou o sítio por uma chácara num fundo de vale no Jardim Santa Mônica (Zona Norte) e há cinco anos foi buscar a esposa, a pedido da filha. Lá ele cultiva café, abacaxi, uva, jaca, poncan e limão, ''mas a horta é bem pequena porque a lesma come tudo'', revela. Além do trio canino que o acompanha no trabalho todo dia, Valdomiro tem outros 21 cachorros. ''Todos criados em casa.''
Nem o reumatismo, muito menos o tempo ruim impede o carroceiro de sair para trabalhar. ''Capino até debaixo de chuva'', garante Valdomiro. Tanto sacrifício, explica, ''é para poder me aposentar logo''. E depois do bate-papo ele monta na carroça amarela e vermelha, se protege do sol debaixo da cobertura improvisada, feita a partir de uma piscina infantil, acomoda os cães ao seu lado e parte em busca de mais uma tarefa diária acompanhado da Boneca, sempre enfeitada com fitas.

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