Vagões também são retrato do descaso
Ponta Grossa - Uns cercados pelo mato alto na subestação Cará-Cará, na saída para Curitiba. Outros dando dor-de-cabeça para os moradores vizinhos no bairro de Oficinas. Na periferia de Ponta Grossa, os ''cemitérios'' de vagões evidenciam que o descaso com o patrimônio e o passo lento da manutenção não estão relacionados apenas aos trilhos.
Na subestação Cará-Cará - que já abrigou a estação de tratamento de dormentes da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), hoje sublocada a uma empresa privada que não trabalha com dormentes - o abandono é visível. Dezenas de vagões, alguns verdadeiras relíquias, aguardam, enfileirados no meio de um matagal de quase 1 metro de altura, um destino melhor.
A fila é grande. No final, um vagão tombado, sem rodas, ao lado de uma ponte. Nesse ponto estão os piores vagões. A presença de dezenas ainda com o símbolo da RFFSA pintado nas paredes e um, do tempo que o equipamento era de madeira, mostra que parte do problema é uma herança da estatal.
Apesar das centenas de vagões, a reportagem encontrou apenas um segurança próximo à área dos vagões em uso, alocados temporariamente na subestação. O funcionário diz que já houve registro de roubo de metal e peças dos vagões, mas que a ocorrência diminiu nos últimos anos.
Dentro da área urbana, o abandono é sinônimo de incômodo. ''Quando eu comprei aqui, o empreiteiro falou que iam tirar isso daqui, mas de lá para cá só aumentou. É um incômodo, amontoa gente aí para usar drogas e eu mesma já dedetizei minha casa várias vezes por causa dos escorpiões que devem vir de lá'', diz a numeróloga Maria Helena Tavares, de 63 anos.
Os pelos menos 50 vagões que incomodam os moradores estão em um terminal fora dos muros da América Latina Logística (ALL) que divide a Vila dos Ferroviários. ''O pior é o problema de segurança. Há pouco tempo uma moradora daqui de perto foi abordada por um dos sujeitos que ficam por aí e até um homem foi encontrado morto aí nos vagões com as mãos amarradas em um arame'', conta o ferroviário aposentado Amauri Antunes Pereira, de 50 anos.
Quem, como seu Amauri, mora há mais tempo na região destaca que o ramal sempre manteve os vagões que não cabem dentro do pátio da oficina. ''Só que antigamente não tinha tanto como agora, depois que a ALL assumiu virou nisso'', diz a dona de casa Lurdes Túlio, de 65 anos.
Esposa de outro ferroviário aposentado e uma das primeiras moradoras do bairro - ela reside ali há 47 anos -, dona Lurdes diz que a rotina da comunidade mudou muito nos últimos anos. ''Eu vou à academia que é a duas quadras daqui de carro, dou uma volta danada e passo pelas ruas esburacadas só para não atravessar essa linha, não tenho coragem'', comenta. (A.S.)





