O Brasil já domina a tecnologia da vacina anti-aborto. É o único medicamento conhecido capaz de curar um tipo de aborto recorrente que impede 2% dos casais de ter filhos. Sua descoberta, após o surgimento da Aids nos anos 80 e com a evolução de conhecimentos na área dos transplantes de órgãos, foi marcada por controvérsias.
No final do 1998, depois de cinco anos de pesquisas, a equipe do médico Ricardo Barini, do Departamento de Ginecologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), publicou o primeiro relatório de resultados obtidos com 182 pacientes que utilizaram a vacina. Essas mulheres, todas com mais de 35 anos de idade, tentavam engravidar há anos e haviam passado por vários tipos de tratamentos. ‘‘Só testamos neste primeiro grupo de mulheres que haviam abortado espontaneamente pelo menos três vezes’’, conta Barini. Após o tratamento com a vacina, 116 pacientes conseguiram ter filhos.
DivulgaçãoGravidez protegidaEquipe da Universidade Estadual de Campinas, chefiada pelo médico Ricardo Barini, aplica método que inicialmente gerou controvérsias: utilizando linfócitos do parceiro sexual da mulher, complicações durante a gravidez são eliminadas. Com ajuda da vacina, mulheres brasileiras que já haviam sofrido abortos naturais (ao lado, com os filhos) conseguiram desenvolver gestação sem problemas. A técnica também é aplicada nos Estados Unidos e na Europa, com resultados satisfatóriosNos últimos meses, satisfeitos com os resultados, Barini e os médicos do Ambulatório de Aborto Recorrente da Unicamp ampliaram para 500 o número de mulheres tratadas com a vacina. Destas, 170 já tiveram filhos, 130 estão grávidas e as demais ainda vivem as fases iniciais do tratamento, que pode durar alguns meses.
A tecnologia da vacina anti-aborto começou a tomar forma em alguns laboratórios norte-americanos em meados dos anos 80, graças a observações feitas após o surgimento da Aids. Mas, até o início dos anos 90, ela era utilizada apenas por médicos da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, que mantinham uma clínica especial na Califórnia, onde recebiam pacientes do mundo inteiro. Há pouco menos de dez anos, a vacina começou a ser pesquisada por clínicas européias e japonesas. Chegou ao Brasil pelas mãos de Barini, há cinco anos.
Desde então, a grande quantidade de resultados positivos obtidos em diferentes centros médicos do mundo - entre os quais o da Unicamp - ajudaram a eliminar as controvérsias em torno da vacina.
A vacina anti-aborto é produzida com linfócitos extraídos do sangue do parceiro da mulher que quer engravidar. ‘‘Esses linfócitos são injetados no sangue da mulher, repetidas vezes, em períodos que variam de semanas a meses. Enquanto isso, acompanhamos as alterações no seu sistema imunológico até chegarmos à conclusão de que ela já pode engravidar’’, explica Barini.
A idéia de utilizar sangue do parceiro como vacina surgiu empiricamente nos anos 80. Com o pânico gerado pelo surgimento da Aids e num tempo em que os métodos de controle dos bancos de sangue ainda não eram seguros, os médicos decidiram utilizar, sempre que havia compatibilidade, o sangue de parceiros em pacientes que necessitavam de transfusão.
Com a ocorrência repetida de experiências desse tipo, os médicos observaram um fenômeno interessante: muitas mulheres que sofriam aborto recorrente conseguiram engravidar depois de receber o sangue dos maridos. Surpresos, os médicos norte-americanos decidiram ampliar as pesquisas.
Até então, não havia nada na literatura científica que justificasse o fenômeno. Apesar disso, o grupo de médicos de Chicago, comandado por Alan Beer, com quem Barini estudaria alguns anos depois, decidiu insistir no tratamento. Naquele tempo, a idéia de desenvolver uma vacina contra aborto recorrente estava longe de ser uma unanimidade dentro da comunidade médica mundial. Importantes grupos de pesquisa do setor chegaram a afirmar publicamente que a criação da tal vacina não passava de falácia.
Para realizar as pesquisas, o grupo de Chicago se baseava também em evidências anteriores. A idéia de que fecundação e gravidez disparam uma série de mudanças no sistema imunológico da mãe remonta aos anos 50. ‘‘Já se sabe há muito que o sistema imunológico da mãe tem que ser profundamente alterado para que o feto se desenvolva. Afinal, o embrião tem metade do material genético da mãe e a outra metade do pai. Se não houvesse mudança nenhuma, ele seria considerado um corpo estranho e rejeitado pelo sistema de defesa do organismo materno’’, revela Barini.
Em 1966, os biólogos Clarke e Kirby formularam pela primeira vez uma hipótese ousada. Segundo eles, a diferença genética entre mãe e feto era benéfica à gravidez. Essa hipótese, entre outras coisas, contrariava ideologias eugênicas. Quando maiores as diferenças genéticas, diziam eles, melhores as possibilidades de desenvolvimento do feto.
Mas, até meados dos anos 80, as razões desta ‘‘preferência pela diferença’’ ainda eram desconhecidas. Em 83, equipes médicas ligadas à área de transplantes renais demonstraram que pacientes submetidos a transfusões de sangue de um número grande e variado de doadores sofriam menos rejeição aos órgãos transplantados do que aqueles que haviam recebido sangue de apenas um ou dois doadores. Essa descoberta reforçava a importância da diferença para o funcionamento do sistema imunológico e abria um novo caminho para as pesquisas com a vacina anti-aborto. Assim, apesar das controvérsias, os médicos do grupo de Chicago começaram a tratar mulheres vítimas de aborto recorrente com aplicações de linfócitos. ‘‘Nessa época, os pesquisadores usavam linfócitos de vários doadores. Ainda não se conhecia o mecanismo que estava envolvido no processo’’, lembra Barini. Os resultados obtidos estavam longe de chegar aos índices atuais. Mas eram encorajadores. ‘‘De 16% a 20% das mulheres tratadas por este método conseguiam engravidar’’, diz.
Nos anos 90, com o estudo das estruturas moleculares envolvidas no processo imunológico, os cientistas conseguiram revelar a intimidade dos mecanismos causadores dos até então chamados abortos recorrentes sem causa definida. ‘‘Hoje sabemos que as mudanças disparadas na intimidade do corpo da mulher para permitir a gestação são muito mais complexas do que supunhamos há menos de duas décadas’’, reconhece. Quando a mulher engravida, seu sistema imunológico libera moléculas que ‘‘reconhecem’’ o material genético diferente do embrião e criam uma substância chamada anti-anticorpo. O anti-anticorpo, como o nome diz, impede que os anticorpos maternos rejeitem o feto como se fosse um corpo estranho. ‘‘O que se descobriu recentemente é que para produzir o anti-anticorpo, o sistema imunológico da mulher tem que ‘reconhecer’ as diferenças no material genético paterno, e aceitá-lo como diferente’’, explica.
Nos casos de aborto recorrente o material genético do pai é muito semelhante ao da mãe. As moléculas que deveriam reconhecê-lo como ‘‘material estranho’’ para, em seguida, estimularem a produção de anti-anticorpo, não o fazem. Assim, a gestação chega a se realizar, mas de forma difícil, até culminar com a expulsão do feto pelos anticorpos da mãe. ‘‘O aborto acontece pelas semelhanças que existem entre o material genético do pai e o da mãe. E não o contrário’’, conta.
A partir da descoberta deste mecanismo, a vacina anti-aborto ganhou um novo impulso. ‘‘O que temos que fazer é estimular o corpo da mulher a reconhecer a diferença que existe entre o material genético do futuro pai e o dela’’, diz. E aí entra a tecnologia de produção de vacinas. Doses repetidas e pequenas de linfócitos do parceiro são injetadas no sangue da mãe, repetidas vezes, até que seu organismo comece a produzir anticorpos. Em alguns casos, este reconhecimento é rápido. Em outros, demora meses. ‘‘Quando isso ocorre, liberamos a mulher para engravidar’’, conclui. Para descobrir que este ‘reconhecimento’ ocorreu, são necessários exames bioquímicos sofisticados que a Unicamp só começou a realizar há três anos.

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