Vaca Gorda: sossego e religiosidade
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quinta-feira, 04 de dezembro de 2008
Wilhan Santin<BR>Reportagem Local 
Manoel Ribas - Talvez você nunca tenha reparado, mas está bem no centro dos mapas mais detalhados do Paraná: Vaca Gorda. Um pequeno ponto indica o distrito de Manoel Ribas (146 km ao sul de Apucarana), que, a princípio, chama a atenção apenas pelo nome tão peculiar. Mas o local tem outros atrativos. Vale a pena pegar a estradinha que parte da PR-466, encarar alguns quilômetros de paralelepípedos e desembarcar no lugarejo colonizado por catarinenses.
O que o visitante encontra é um povo de sobrenomes que só soletrando para chegar à escrita correta, história, um posto telefônico, paisagens de encher os olhos, sossego e muita religiosidade.
Os primeiros moradores chegaram por ali na década de 1940, partindo de Santa Catarina. Vieram com lotes comprados para trabalhar com suínos. Também plantavam milho, abóbora e batatas, que serviam para engordar os porcos. Os negócios iam bem e a população da vila - ainda sem nome - só crescia.
''Chegamos a ter 600 eleitores aqui, hoje esse número não passa de 200'', conta o pioneiro João Heidemann. ''Um dia um polaco que morava por aqui resolveu matar uma vaca gorda. Era costume da época chamar a vizinhança toda quando se matava um animal. Aí o povo dizia que estava indo lá na vaca gorda'', completa Heidemann, explicando a origem do nome do lugarejo.
Nos bons tempos, o distrito contava com um convento de irmãs alemãs e um hospital-maternidade. Hoje, o hospital construído no estilo germânico, com telhado inclinado para escorrer a neve que não existe no centro do Paraná, virou casa de família e pousada. As freiras foram embora e o convento virou seminário. ''O problema foi quando inventaram ração para suíno e surgiram os porcos brancos, aí muita gente começou a quebrar e voltou para Santa Catarina. Hoje, o forte daqui é o leite'', explica Heidemann.
Outra coisa antiga que sobrou por ali é o teleposto. Nas casas não há linhas telefônicas, mas ramais. Ligação só por meio de telefonista. Sinal de celular é difícil, principalmente no bairro de Barra de Santa Salette - sim, Vaca Gorda tem bairros - onde está o teleposto.
Se alguém estiver ocupando a única linha, ninguém mais pode utilizar. ''Quando uma pessoa está se estendendo demais na ligação e há outros querendo telefonar, tenho que ir até a casa de quem está ocupando a linha e pedir para desligar. A regra é que se use o telefone por no máximo 15 minutos, mas tem gente que chega a ficar 45'', relata Tatiane Schuster, uma das duas telefonistas que trabalham no teleposto. Ela também é uma das poucas jovens que moram no distrito. ''O pessoal mais novo foi para as grandes cidades fazer faculdade, só ficaram os mais velhos. Eu fiquei porque casei e escolhi permanecer com o marido'', comenta.
O teleposto funciona 12 horas por dia durante a semana, das 9h às 19h aos sábados e das 8h30 às 11h30 aos domingos, com exceção do horário de missa, como informa um cartaz na parede. No restante do tempo, só é possível falar ao telefone por meio de um tefone público, instalado há pouco tempo. O controle do tempo que o usuário ocupa a linha é manual, feito por cronômetro. As telefonistas anotam tudo em um caderno e, quando chega a conta, é feito um rateio de acordo com o que cada um usou.
Apesar dos atrativos, principalmente religiosos, os turistas ainda não descobriram Vaca Gorda. Por isso, a calma se instalou por ali. A prosa rola solta o dia todo nos portões. Até a presença de jornalistas é motivo de entusiasmo. ''Olha como são as coisas, meu marido acabou de dizer que apesar das coisas que temos aqui, reportagem nenhuma nunca deu bola para esse lugar. Aí, de repente, a Folha de Londrina aparece''. Esse foi o comentário de Maria Meurer Heidemann, esposa do pioneiro João ao receber os jornalistas no seu quintal.


