Utilidade pública pelas ondas do rádio
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sexta-feira, 10 de julho de 2009
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Quando a aeronave AF 447 da Airbus caiu na costa brasileira, a primeira notícia da localização do que seriam os destroços foi transmitida pelo radioamador André Sampaio, de Fernando de Noronha (PE). Na ilha, ele já participou de salvamentos de pessoas em mais de 20 desastres aéreos e marítimos. No ano passado, durante as enchentes que assolaram Santa Catarina, foram também os praticantes do radioamadorismo que conseguiram manter contato com localidades que ficaram incomunicáveis por causa da catástrofe.
Os dois acontecimentos recentes ilustram o espírito dessa prática que une o hobby de buscar incansavelmente canais de comunicação com os mais distantes lugares do mundo - através das ondas de rádio - ao espírito voluntário de prestar serviços de utilidade pública em situações de emergência.
Em Londrina não é diferente. Alguns radioamadores da cidade participam da Rede Nacional de Radioamadores (Rener), ligada à Defesa Civil, cujo objetivo é substituir os meios de comunicação usuais quandos eles tornam-se inoperantes em situações de desastres ou estado de calamidade pública.
Os radioamadores André Luis Bergotti e José Aparecido Andreas integram a Defesa Civil, fazem parte da rede e colecionam histórias de comunicação de acidentes antes mesmo do acionamento do serviço de emergência pelas vias convencionais.
Depois do acidente com o airbus, estão utilizando um programa que permite monitorar todas as aeronaves que passam entre Belo Horizonte (BH) e Florianópolis (SC). Informações policiais via rádio também são captadas. ''A gente até pode ouvir, mas de acordo com o Código de Ética do Radioamadorismo, não podemos divulgar nenhuma informação'', explicaram.
Assim como os radioamadores Marísio Barreiros Camargo e Marcelo Ramos, Bergotti e Andreas começaram a praticar esse hobby motivados pela vontade de se comunicar com pessoas de lugares diferentes, numa época em que o contato instantâneo através da internet ainda era coisa de ficção científica.
''Além da possibilidade de falar com pessoas de vários locais do mundo, somos motivados pela realização de experiências comunicacionais'', conta Camargo, cuja antena gigantesca no quintal da casa sempre chama a atenção dos vizinhos.
Semanalmente, eles participam de disputas chamadas de ''contestes'', cujo objetivo final é falar com o maior número de estações do planeta. Os contatos são comprovados por cartões enviados posteriormente pelo correio. São as trocas de ''QSLs'', que são as identidades dos praticantes.
Na estação de Camargo, a caixa de cartões evidencia as centenas de conversas travadas durante mais de 30 anos de radiomadorismo. ''Hoje em dia há troca de QSLs pela internet, mas prefiro o sistema mais convencional'', conta ele, que também gosta manter contato com outros radioamadores por uma linguagem aparentemente em desuso: a telegrafia por Código Morse.
Durante a realização da reportagem, ele demonstrou a técnica através do contato com um radioamador de Buenos Aires, na Argentina, comprovando que a telegrafia ainda tem adeptos apesar da facilidade da comunicação on line. Numa prateleira, exibe um equipamento utilizado na Segunda Guerra Mundial. ''Só foram fabricados 400 desse modelo em todo o mundo'', orgulha-se.
Ao falar sobre o assunto, eles lembraram de um episódio acontecido com um radiomador de Rolândia que, em coma, conseguiu comunicar-se com a família através do movimento dos dedos em Código Morse. ''Foi emocionante. ele falou a outro radiomador que estava com frio e deixou algumas instruções para a família. Logo depois, faleceu'', disse Camargo.
Serviço: Para receber um indicativo de estação e poder atuar como radiomador, é preciso submeter-se a um exame realizado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que avalia os conhecimentos dos candidatos sobre legislação, radioeletrecidade, ética operacional e radiotelegrafia. Em Londrina, será realizada um prova para ingresso em radioamadorismo no dia 26 de novembro. Informações: www.labre-pr.org.br ou (43) 9993-7537.


