Pessoas que necessitam de atendimento odontológico gratuito passam até 19 horas na fila dos postos de saúde municipais de Maringá. As vagas são disponibilizadas nas 24 unidades todas às sextas-feiras, mas o número varia de uma semana para outra. Para assegurar o tratamento, muita gente chega nas unidades de saúde ao meio-dia e só deixa o local às 7 horas do dia seguinte.
Não bastasse a paciência exigida dos usuários para ficar tanto tempo em uma fila, os postos de saúde do município não mantêm um local de abrigo adequado, obrigando as pessoas a permanecerem toda madrugada ao relento. Faça chuva ou frio, os usuários que não podem pagar um tratamento particular, acabam ficando na calçada. ‘‘Pode dar a maior chuva que a gente tem que se virar porque o guarda não abre o portão do posto’’, diz a desempregada Darci de Souza, 28 anos.
Na última quinta-feira, Darci de Souza chegou no posto Tuiuti às 13h30 e pretendia permanecer na fila até sexta-feira de manhã para conseguir vaga para o tratamento. Ela elogia os serviços prestados pelos profissionais, mas critica a forma como os usuários são tratados para conseguir o atendimento. ‘‘Eles deveriam rever esta forma de distribuir as vagas’’, reivindica.
A estudante Fernanda Cefalo, 18 anos, também passou pela tortura da fila na última quinta-feira. Ela chegou no posto munida de muitas revistas e livros. ‘‘É uma forma de passar a hora enquanto fico na fila’’, diz.
Já a dona de casa Maria de Lurdes Lima mandou o filho ir para o posto às 13 horas para garantir uma vaga. Maria de Lurdes só pôde chegar no posto Tuiuti às 16 horas, mas mesmo assim seria a primeira a ser atendida na manhã seguinte. ‘‘É a quarta vez que tento uma vaga para fazer o tratamento. Das outras três vezes cheguei aqui 13 horas e já não tinha mais vaga. Desta vez vou ser a primeira a ser atendida e nem acredito’’, comemorava.
Para jantar e não passar frio, muitos usuários costumam contar com a ajuda de parentes, que levam comida e cobertas no início da noite. ‘‘Minha mãe vai me trazer um lanche à noite’’, explica Fernanda.
Quando indagadas sobre o perigo de permanecer a madrugada toda na rua, Darci, Fernanda e Maria de Lurdes responderam que sentem medo, mas não têm outra alternativa. ‘‘A gente precisa fazer o tratamento e não temos como pagar, então o jeito é enfrentar tudo isso’’, afirma Maria de Lurdes.
De acordo com a coordenadora de Odontologia da rede pública de Maringá, Iza Shinike, 86 profissionais da área prestam serviços nos 24 postos municipais. Segundo ela, as vagas são disponibilizadas de acordo com a finalização do tratamento dos pacientes. ‘‘Há casos que o profissional não consegue terminar o tratamento em uma semana, então estas vagas não ficam disponíveis para a semana seguinte’’, explica.
Conforme Iza Shinike, os dentistas da rede pública realizam tratamento completo de aproximadamente três mil pacientes por mês. O número de procedimentos odontológicos é de 20 mil por mês.
A fila nos postos de saúde, conforme a coordenadora, sempre vai existir porque a demanda sempre vai ser maior que a oferta. Com relação à distribuição das vagas, Iza diz que os postos estudam uma forma melhor para evitar tanto sacrifício dos usuários, mas o difícil, segundo ela, é ter um consenso. ‘‘Tem alguns postos que estão atendendo com lista de espera, mas algumas pessoas já começam a fazer críticas, e por mais que a gente tente um modo novo de atender, sempre vai haver algumas pessoas insatisfeitas’’, revela.
Ela não quis comentar sobre o fechamento dos postos às 19 horas e sobre os riscos dos usuários que ficam de madrugada na fila. Os depoimentos colhidos para esta reportagem foram feitos na última quinta-feira à tarde, por volta das 16 horas, no Posto Tuiuti. Naquele dia, a direção da unidade tomou a iniciativa de não fechar o portão à noite, permitindo que os usuários permanecessem no pátio interno, que é coberto.

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