Usuários passam a noite na fila do SUS
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de maio de 1999
Lucinéia Parra 
Pessoas que necessitam de atendimento odontológico gratuito passam até 19 horas na fila dos postos de saúde municipais de Maringá. As vagas são disponibilizadas nas 24 unidades todas às sextas-feiras, mas o número varia de uma semana para outra. Para assegurar o tratamento, muita gente chega nas unidades de saúde ao meio-dia e só deixa o local às 7 horas do dia seguinte.
Não bastasse a paciência exigida dos usuários para ficar tanto tempo em uma fila, os postos de saúde do município não mantêm um local de abrigo adequado, obrigando as pessoas a permanecerem toda madrugada ao relento. Faça chuva ou frio, os usuários que não podem pagar um tratamento particular, acabam ficando na calçada. Pode dar a maior chuva que a gente tem que se virar porque o guarda não abre o portão do posto, diz a desempregada Darci de Souza, 28 anos.
Na última quinta-feira, Darci de Souza chegou no posto Tuiuti às 13h30 e pretendia permanecer na fila até sexta-feira de manhã para conseguir vaga para o tratamento. Ela elogia os serviços prestados pelos profissionais, mas critica a forma como os usuários são tratados para conseguir o atendimento. Eles deveriam rever esta forma de distribuir as vagas, reivindica.
A estudante Fernanda Cefalo, 18 anos, também passou pela tortura da fila na última quinta-feira. Ela chegou no posto munida de muitas revistas e livros. É uma forma de passar a hora enquanto fico na fila, diz.
Já a dona de casa Maria de Lurdes Lima mandou o filho ir para o posto às 13 horas para garantir uma vaga. Maria de Lurdes só pôde chegar no posto Tuiuti às 16 horas, mas mesmo assim seria a primeira a ser atendida na manhã seguinte. É a quarta vez que tento uma vaga para fazer o tratamento. Das outras três vezes cheguei aqui 13 horas e já não tinha mais vaga. Desta vez vou ser a primeira a ser atendida e nem acredito, comemorava.
Para jantar e não passar frio, muitos usuários costumam contar com a ajuda de parentes, que levam comida e cobertas no início da noite. Minha mãe vai me trazer um lanche à noite, explica Fernanda.
Quando indagadas sobre o perigo de permanecer a madrugada toda na rua, Darci, Fernanda e Maria de Lurdes responderam que sentem medo, mas não têm outra alternativa. A gente precisa fazer o tratamento e não temos como pagar, então o jeito é enfrentar tudo isso, afirma Maria de Lurdes.
De acordo com a coordenadora de Odontologia da rede pública de Maringá, Iza Shinike, 86 profissionais da área prestam serviços nos 24 postos municipais. Segundo ela, as vagas são disponibilizadas de acordo com a finalização do tratamento dos pacientes. Há casos que o profissional não consegue terminar o tratamento em uma semana, então estas vagas não ficam disponíveis para a semana seguinte, explica.
Conforme Iza Shinike, os dentistas da rede pública realizam tratamento completo de aproximadamente três mil pacientes por mês. O número de procedimentos odontológicos é de 20 mil por mês.
A fila nos postos de saúde, conforme a coordenadora, sempre vai existir porque a demanda sempre vai ser maior que a oferta. Com relação à distribuição das vagas, Iza diz que os postos estudam uma forma melhor para evitar tanto sacrifício dos usuários, mas o difícil, segundo ela, é ter um consenso. Tem alguns postos que estão atendendo com lista de espera, mas algumas pessoas já começam a fazer críticas, e por mais que a gente tente um modo novo de atender, sempre vai haver algumas pessoas insatisfeitas, revela.
Ela não quis comentar sobre o fechamento dos postos às 19 horas e sobre os riscos dos usuários que ficam de madrugada na fila. Os depoimentos colhidos para esta reportagem foram feitos na última quinta-feira à tarde, por volta das 16 horas, no Posto Tuiuti. Naquele dia, a direção da unidade tomou a iniciativa de não fechar o portão à noite, permitindo que os usuários permanecessem no pátio interno, que é coberto.


