Mauro FrassonDescasoFreire-Maia: no tempo dos militares havia mais recursos para a pesquisa científica no BrasilUso da clonagem é útil, mas assusta
Geneticista católico convertido de renome mundial teme que o homem ultrapasse barreiras perigosas na manipulação da vida
Israel Reinstein
Folha - Hoje, na genética, o assunto da moda é a clonagem. O senhor é favorável ao uso dessa técnica?
Newton Freire-Maia - A clonagem é uma técnica muito antiga. Quando se planta uma muda de alface, está-se fazendo clonagem. Por isso, ela nada mais é que a repetição de um indivíduo por meio dele mesmo. Isso acontece também na genética microbiólogica, com a clonagem de um mesmo micróbio milhões de vezes. Mas o que ocorreu de extraordinário há pouco mais de um ano e que colocou o tema em discussão foi a clonagem de um ser adulto, um mamífero.
Folha - Esta técnica é ruim?
Freire-Maia - A tecnologia não é de todo ruim. Por exemplo, ela pode ser importante na criação das variedades transgênicas, em que se tira um fator genético de um indivíduo e se coloca em outro, para que o segundo produza o que o primeiro deveria produzir. Isso é muito útil. Por exemplo, na produção de insulina, basta pegar genes produtores de insulina e injetar em micróbios, que passam a fabricar incessantemente a insulina. Com isso, o preço da insulina vai baixar, beneficiando os diabéticos.
Folha - Mas se for adotada a tecnologia para produção de réplicas humanas?
Freire-Maia - A situação é outra, tanto que as posições ainda não estão claras. O governo americano, por exemplo, foi contra a fabricação de clones humanos. Além disso, criou uma comissão para estudar esse problema e dar sugestões. Uma delas é que aquele governo não patrocinasse uma pesquisa com embriões humanos. E o que alguns cientistas fizeram? Pediram dinheiro para universidades e firmas farmacêuticas para continuar seus estudos.
Folha - E a ética nesse processo não acaba sendo ferida?
Freire-Maia - Sim. Como eles conseguem o embrião humano? Eles pegam de uma mulher que queira abortar ou então fabricam o embrião de mulheres e homens voluntários, congelando quando o embrião começa a se desenvolver. E depois, quando se quer fazer uso, vai-se no congelador e se pega como se fosse um embrião de cachorro e gato. Então, o que ia se transformar num ser humano acaba sendo injetado em ratos ou se corta para exames.
Folha - Então, o senhor não é favorável ao uso indiscriminado dessa tecnologia?
Freire-Maia - Sou contrário, porque me assusta.
Folha - Pela falta de controle?
Freire-Maia - Também, mas acima disso é que estão mexendo com a espécie humana. Eu não tenho dúvida de que a experiências com embriões humanos estão acontecendo em diversos países. E o que eles fazem: injetam esses embriões, que seriam futuras crianças, em peles de ratos. E essas peles acabam formando um tumor, que quando cresce é cortado para estudo. Isso tudo assusta. O que os cientistas de Hitler faziam nos escandalizava, por causa da experiência com adultos. Hoje esses novos cientistas não pegam mais adultos, mas fazem com embriões humanos.
Folha - Para evitar os excessos nas experiências falta criar uma ética para a genética?
Freire-Maia - Já existem regras estabelecidas, que formam a bioética. Mas essas regras mudam com o tempo, porque a ética muda. Há tempos, numa discussão, uma pessoa se perguntou como a ética religiosa não muda, desde que foi dada por Deus. Mas havia um filósofo que disse: ‘‘Deus não dá ética para ninguém, o que a religião dá são princípios morais, que os homens fazem deles as suas morais.’’
Folha - Mas nessa evolução da ética não existe a pressão do mercado?
Freire-Maia - Com certeza, porque as empresas farmacêuticas têm interesses na fabricação de novos remédios. E quanto mais barato for a produção e a comercialização do remédio, mais vende. Então, a produção da insulina para diabéticos deve ter aumentado, porque ela deve ter baixado de preços, em função de existirem micróbios que produzem o produto durante 24 horas seguidas, incessantemente, sem mais ter a necessidade de se extrair de animais.
Folha - O Brasil detém tecnologia para clonar um ser humano?
Freire-Maia - Acho que não possui. Porque faltam pesquisadores e tecnologia para o desenvolvimento desse processo. Não conheço quem faça.
Folha - O senhor dominaria essas novas técnicas?
Freire-Maia - Sou geneticista de outra época. O problema é que quando a ciência se desenvolve, ela se parte em dezenas de outras. Então, um cientista que se dedicava apenas a uma delas, quando vê aquelas dezenas de outras, acaba se sentindo ignorante do resto. Eu estudo genética há cerca de 60 anos. Mas eu costumo dizer que a coisa que menos sei é a genética. Porque ela se desenvolveu tanto e se dividiu tanto, que um sujeito não consegue saber tudo. Eu sou a prova disso. Em 1953, foi descoberta a base química da herança, que é o DNA. Olha, eu comecei estudar genética em 1934. Era um menino. E depois de 20 anos, quando já era geneticista, descobriram o DNA. De lá para cá, desenvolveu-se a genética molecular. Eu não entendo nada de genética molecular.
Folha - Em qual ramo da genética o senhor se especializou?
Freire-Maia - Estudei muitas doenças hereditárias e más-formações. Dediquei-me durante 20 a 30 anos sobre casamentos entre primos. Antes estudei o raio matrimonial médio, uma regra que procura saber onde as pessoas nasceram e onde casaram. Assim, estabelece-se a proporção de casamentos consanguíneos.
Folha - Com essa técnica, o que se pode realizar?
Freire-Maia - Com base nesses dados é possível buscar os efeitos, relacionado os casamentos de primos com os de não-primos. E o que se verifica é que a mortalidade precoce e as crianças com defeitos entre primeiros é maior.
Folha - Essas pesquisas de casamentos consanguíneos deixaram de ser realizadas?
Freire-Maia - Ciência é muito estranha. Porque nela há moda. Essa história de estudar casamento era uma moda entre as décadas de 50 até 70. Até que houve uma discussão sobre o assunto e não se chegou a um acordo. Então os cientistas pararam de estudar. Mas isso é interessante, porque quando o cientistas pára de estudar um determinado assunto não quer dizer que ele foi solucionado. O que aconteceu foi um impasse, mas sem solução.
Folha - Depois de deixar esse tema, ao qual o senhor se dedicou?
Freire-Maia - O meu grande amor dos últimos 30 anos é um grupo de doenças chamadas de displasias ectodérmicas. Essa doença surge no momento de formação do embrião do vertebrado. Quando ele começa a se dividir, forma três camadas: ectoderme, mesoderme e endoderme, que é uma bolinha dentro da outra. A ectoderme é que dá a pele, com todos os anexos - unhas, glândulas sudoríparas, sebáceas, esmalte dos dentes e sistema nervoso. Quando sofre uma mudança, a criança nasce com problemas na pele, unhas, nos dentes, nos pêlos. Como afeta também as glândulas sudoríparas, a criança não sua. Isso é complicado, porque no verão a criança tem febre e o médico não consegue descobrir que doença tem.
Folha - Esses estudos foram realizados no Brasil?
Freire-Maia - Eu criei na Federal um centro para estudos de displasias ectodérmicas. Quando comecei a estudar o assunto, estava na Organização Mundial de Saúde. Para minha surpresa e, em certo ponto, alegria, não havia uma definição e classificação de displasia ectodérmica. Então, em 1970, estabeleci definição e classificação, sendo que no primeiro trabalho encontrei 32 casos e, no segundo, 73. Hoje são 160. A classificação se baseia em fatores como problemas no dente, unhas, pêlos e se sua muito ou pouco. Jogando com essas quatro fatores, é possível classificar num dos 11 subgrupos. É preciso ter dois defeitos entre pêlo, dentes, unhas e transpiração.
Folha - E hoje há novidade nesse setor?
Freire-Maia - As pesquisas nesse ponto caíram muito nos últimos tempos, por causa do governo federal. Com essa mania dele de ajudar os bancos e fazer economia, acaba sobrando pouco dinheiro para pesquisa. Então o Centro de Displasia Ectodérmica da Universidade Federal do Paraná, que era o único do mundo, está fechando as portas. Foi aqui que foram descritas 20 displasias de um universo de 160, o que corresponde a cerca de 12% do total. Muitas delas em cidades de outros Estados, o que representa gastos com viagem, diárias, fotos.


O professor Newton Freire-Maia, de 81 anos, é verbete na Grande Enciclopédia Delta Larousse. Geneticista de renome mundial, ele se formou em Odontologia em Minas, e depois foi reconhecido no Brasil e no exterior por trabalhos sobre casamentos consanguíneos e má-formação genética. Hoje, sua paixão é a pesquisa sobre a displasia ectodérmica, doença que afeta a formação dos embriões. Ele nasceu em Boa Esperança (MG), homenageada por seu amigo Lamartine Babo na música ‘‘Serra da Boa Esperança’’. De 1946 a 51 morou em São Paulo. Em 1951, ele veio para Curitiba, para lecionar Biologia na Universidade Federal do Paraná. De 1956 a 1957 voltou a estudar, em Michigan (EUA), retornado para Curitiba em
1957; em 1960 fez doutorado no Rio, voltando à UFPR onde deu aulas até se aposentar, há 10 anos. O pesquisador descreve seus receios quanto à clonagem, fala de religião, como ex-ateu convertido ao catolicismo, e reclama da falta de verbas para pesquisa. Hoje ele faz palestras e ajuda alunos da UFPR. Diz que das 12 às 14 horas lê, principalmente Nelson Capucho, Luiz Geraldo Mazza e Zeca Côrrea Leite. Após a conversa, Freire-Maia convidou o repórter para partilhar de mais uma de suas diversões: escutar jazz, em especial, ‘‘Round Midnight’’. ‘‘Gosto muito do jazz e de seus músicos, como Milles Davis, Charles Mingus e Billie Holliday’’, afirma enquanto bebe um suco de caju.


A ciência não deve opinar
sobre assuntos religiosos
Folha - O senhor acha que a falta de recursos para a pesquisa no Brasil é um problema do governo Fernando Henrique Cardoso ou da falta de um política de incentivo a pesquisa?
Freire-Maia - É predominantemente do presidente Fernando Henrique Cardoso. Eu sou admirador dele como pessoa. Eu conheci o presidente. O Zé Vargas (José Israel Vargas), ministro da Ciência e Tecnologia, é meu amigo. Eu gosto do ministro e do presidente, mas eles estão dando muito pouco dinheiro. O triste disso tudo é que no tempo dos militares a situação era melhor no Brasil. Mesmo com a perseguição desgraçada, inclusive de pesquisadores, repassava-se mais recursos. Eu não quero a volta deles, mas pesquisa significa desenvolvimento do País.
Folha - Mas a iniciativa privada não tem interesse em estimular a pesquisa?
Freire-Maia - A iniciativa privada está começando a trabalhar em parceria. Recentemente eu queria publicar um guia de displasia ectodérmica para leigos. Mas não sabia onde publicar. Foi quando apareceu um dos diretores do Colégio III Milênio oferecendo a possibilidade de publicar algum artigo.
Folha - O senhor é socialista filiado ao partido?
Freire-Maia - Sou socialista. E o partido foi o único ao qual fui filiado. Eu e o Mazza (Luiz Geraldo Mazza, jornalista-articulista da Folha de Londrina/Folha do Paraná). Mas a minha formação socialista pode se dizer que não foi nada ortodoxa. Em 1956, fui para os EUA, com bolsa da Fundação Rockefeller. E lá eu trabalhava muito. Quando ia para casa, horas da noite, tomava banho, jantava e ia assistir à televisão para melhorar meu inglês. Depois, antes de dormir, ligava o rádio e ficava ouvindo. Um dia, aconteceu uma coisa extraordinária. Um sujeito começou a se apresentar como o candidato do Partido Socialista à presidência da República dos Estados Unidos. E deu um endereço para contato com o partido. De maneira que pulei da cama e escrevi uma carta para eles. Tempo depois, eles me mandaram folhetos, livros.
Folha - Então, na volta ao País o senhor se filiou ao Partido Socialista daqui?
Folha - De fato, quando voltei ao Brasil procurei o Partido Socialista e me filiei. Na época, o Mazza ainda não era socialista e havia apenas uma meia dúzia de militantes. Mas eu me dedicava, saía do trabalho e na hora do almoço ia trabalhar para o partido. Acabei até sendo candidato a deputado federal, em 1961. E só sai de lá quando os militares fecharam o partido.
Folha - Onde eram as reuniões em Curitiba?
Freire-Maia - Nossa sede era na Rua XV de Novembro. Ficava no primeiro andar e a gente chegava e via o povo passando em baixo, sem saber o que havia naquele endereço. Eu dizia para meus companheiros: ‘‘Gente, quantas pessoas gostariam de entrar no Partido Socialista e não sabem que estamos aqui.’’ Aí eu mandei fazer um placa escrito bem grande ‘‘Partido Socialista Brasileiro’’. Mas ninguém buscava a placa. Depois de meses, a famosa placa foi colocada na marquise, mas não apareceu ninguém.
Folha - E quando o Mazza se filiou?
Freire-Maia - Houve uma época em que os jornalistas resolveram entrar no partido, junto veio o Luiz Geraldo Mazza. Eu tenho a impressão que eles conversaram entre si e decidiram entrar todos juntos - uns 20 ou 30 de uma vez. Um deles foi o Sílvio Back (cineasta paranaense), que ficou meu amigo desde aquela época; e o outro foi o Mazza, que também ficou meu amigo.
Folha - A sua vida religiosa também foi pouco ortodoxa?
Freire-Maia - Eu era ateu e dizia até que era praticante. Porque estava interessado em tirar a fé dos outros. Mas comigo acho que acontecia um coisa que não era muito comum, mas não era rara. Eu tinha vontade de ter religião. Era ateu, mas tinha inveja de quem tinha religião. Tanto que, passado um tempo, eu fui um ateu infeliz.
Folha - E como se deu esta transformação?
Freire-Maia - Fui até um padre franciscano, que até hoje é meu amigo, tirar algumas dúvidas. Conversei com ele por duas horas, sem muitos resultados. Depois comecei a frequentar algumas igrejas próximas da minha casa, na Praça Rui Barbosa. Um dia fui me confessar. Logo em seguida à confissão tinha uma missa e decidi me comungar. Eu participei daquela missa e da seguinte. Mesmo não acreditando em quase nada, aquilo meu deu uma satisfação emocional muito grande.
Folha - Isso mudou de alguma forma o senhor?
Freire-Maia - Eu fiquei tão feliz. E passei a dizer para mim mesmo que era católico apostólico romano. Quando terminou a segunda missa encontrei minha esposa em casa e falei para ela, assim: ‘‘Você pensa que sou aquele homem que você viu na hora do almoço?’’ E ela me respondeu: ‘‘E não é ?’’ Bem satisfeito, respondi que não era, acrescentando que era católico apostólico romano.
Folha - Essa conversão não atrapalhou a sua relação com a ciência?
Freire-Maia - Tenho escrito muito sobre esse assunto, por isso é preciso destacar duas considerações. Primeiro, a ciência não pode entrar no que a religião tem de mais característico dela, porque essa característica não é científica. Por exemplo, acreditar em Deus, em que existem três pessoas - o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ou então acreditar no inferno, purgatório, reencarnação. Tudo isso não são problemas científicos. Por isso, acho que em assuntos eminentemente religiosos a ciência não pode opinar. E nos assuntos eminentemente científicos a religião não deve opinar. Mas a religião fez isso durante muito tempo.
Folha - Mas essa visão não acaba colocando em dúvida a crença?
Freire-Maia - Acho que não. Eu sou católico, mas não sou burro. Eu aceito o que a cosmologia diz a respeito da origem do universo; o que biologia diz sobre animais e plantas; da mesma forma, sobre a origem da humanidade, por evolução.
Folha - Hoje, como senhor enxerga a relação das pessoas com a religião?
Freire-Maia - O problema hoje não é religiosidade. Não faltam pessoas que vão sempre ao culto e sempre evocam o espírito. Na verdade, falta respeito pelos direitos dos pobres. Por isso continuo sendo um socialista. É preciso trazer os pobres ao nosso nível. Falta amor ao próximo. A situação que estamos vivendo é um absurdo.

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