Kraw PenasDúvidaRadominski: ‘‘Acho difícil que medicamento declarado natural tenha ação abrangente a ponto de curar até câncer’’A Associação Paranaense de Reumatologia, com sede em Curitiba, pretende impedir o comércio de medicamentos e complementos alimentares feitos à base de cartilagem de tubarão.
Segundo o presidente da entidade, Sebastião Radominski, os fabricantes brasileiros desses produtos, que ocupam as prateleiras de lojas e farmácias sem qualquer controle do Ministério da Saúde, foram procurados pela Associação para prestar esclarecimentos sobre os critérios de fabricação, composição química dos produtos e estudos científicos que comprovem a eficácia desses medicamentos e complementos alimentares. Se as respostas dos fabricantes não forem suficientes para assegurar que esses produtos realmente funcionam, a Associação Paranaense de Reumatologia vai pedir ao Ministério da Saúde que proíba a comercialização dos derivados de cartilagem de tubarão no Brasil.
Fabricantes indicam o ‘remédio’ para doenças causadas pela falta de cálcio, como a osteroporose, e para diminuir os males causados às mulheres pela chegada da menopausa.
As doenças resultantes do aumento da vascularização (irrigação sanguínea), como todos os tipos de câncer, artrite, artrose, glaucoma e artrite reumatóide, também fazem parte das indicações desses fabricantes. Os médicos dizem que essa grande variedade de indicações é um dos principais pontos que caracteriza a falta de seriedade do produto.
Radominski critica as campanhas publicitárias desses produtos, que segundo ele prometem a cura de uma variedade muito grande de doenças graves. ‘‘Acho difícil que um medicamento declarado natural tenha uma ação tão abrangente a ponto de curar desde osteoporose até câncer’’, duvida.
Outro ponto que incomoda a classe médica é a falta de pesquisas científicas sobre a eficácia da cartilagem de tubarão no tratamento de doenças. Radominski diz que só através de um estudo clínico é que se poderia confirmar a capacidade do organismo de absorver os elementos químicos, como cálcio e fósforo, presentes na composição da cartilagem: ‘‘Quando se diz que um alimento é rico em cálcio não significa que esse elemento vai ser absorvido pelo organismo quando ingerido, ao mesmo tempo que a quantidade ingerida pode ser insuficiente para produzir resultados’’, diz Radominski.
Ele diz que a preocupação com o uso desse medicamento surgiu depois que alguns de seus pacientes se automedicaram, tomando regularmente esse complemento alimentar, e começaram a apresentar alguns efeitos colaterais, como ganho de peso, náuseas e vômitos. ‘‘Percebi que os sintomas eram muitos parecidos com o de uma intoxicação alimentar, como se tivessem comido algum alimento estragado’’. ‘‘Ao examinar a embalagem de um desses comprimidos percebi que o produto tinha o cheiro de peixe podre’’, constatou.
O médico caracteriza o uso crescente da cartilagem de tubarão no País como um modismo e diz estranhar que em congressos internacionais não exista nenhum trabalho sobre o assunto: ‘‘Os fabricantes desses medicamentos dizem que a principal indicação da cartilagem é para osteoporose, mas em um congresso mundial em Cincinatti (EUA) sobre a doença em 1996, eu procurei os maiores especialistas e ninguém tinha nada de concreto a informar, o que fez crescer as dúvidas sobre se esse composto realmente funciona’’.

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