A Usina Hidrelétrica Mauá (UHE), que está em construção no Rio Tibagi - entre os municípios de Telêmaco Borba e Ortigueira (Região Central) - voltou a ser alvo de protestos ontem durante a 8 Celebração das Águas. Realizada pelo oitavo ano em Jataizinho (21 km a leste de Londrina), a mobilização faz parte do Dia Internacional de Combate às Barragens (marcado pelo dia 14 de março). Desta vez, cerca de 300 pessoas de municípios da região percorreram mil metros em uma celebração religiosa que buscou conscientizar toda a população sobre os impactos ambientais ocasionados pela usina.
As obras de construção da UHE tiveram início em julho do ano passado, mas várias ações judiciais questionam a sua legalidade. ''Este é o momento oportuno para a conscientização, onde devemos escolher entre a vida ou a morte, a abundância ou a destruição'', salientou Irmã Rosa Marthin, de Telêmaco Borba, que trabalha com pequenos agricultores há 35 anos. Na sua avaliação, a crise econômica mundial está desviando a atenção da população de um fator mais grave: a crise ecológica. ''A construção da usina não irá prejudicar só a população de Telêmaco, terá impacto em todo o mundo'', comentou.
A celebração teve início na entrada da cidade e, em seguida, os participantes percorreram toda a extensão da ponte (no sentido Jataizinho-Ibiporã) até a margem do Rio Tibagi. Durante o trajeto a caminhada foi interrompida quatro vezes, em atos que buscavam mostrar a importância da água para a vida de todos os seres vivos. A celebração foi encerrada com a partilha, feita com produtos típicos produzidos às margens do rio, como peixes assados, mandioca e frutas. Para o padre José Onero, da Arquidiocese de Londrina, a construção de barragens não leva em consideração a vida de famílias ribeirinhas, de indígenas e de pescadores.
''Além disso, a barragem vai matar a biodiversidade da bacia do rio e iremos usar uma água de pior qualidade porque água represada é água morta'', argumentou o padre. Para a agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e membro da coordenação regional do movimento, Isabel Cristina Diniz, a intenção foi chamar a atenção da população urbana para o fato. ''A celebração tem como pano de fundo a campanha da fraternidade deste ano, que tem como lema justiça e paz. Parte da população da cidade não percebeu a gravidade (da construção da usina), que vai afetar clima, qualidade de vida e produção de alimentos'', observou.
Os irmãos Gabriel e Emanuel Coutinho da Silva, de 16 e 18 anos, saíram de Tamarana (62 km ao sul de Londrina) para participar da celebração. O mais novo cursa a escola agrícola, enquanto o mais velho é técnico agropecuário. ''Queremos mostrar a importância de preservar a natureza. Neste caso (da construção da usina) a fauna e a flora da bacia irão desaparecer. Há muitas outras formas de geração de energia, é só o governo investir mais'', comentou Emanuel. Rogério Nunes, da coordenação estadual da CPT, afirmou que faz parte do papel da Igreja refletir, informar e apontar irregularidades em casos de danos ambientais.
''A usina vai privatizar a água do rio, que será utilizada apenas para a produção de energia. Deus criou a água e, por isso, ela deve ficar à disposição de todos porque todos dependem dela para viver'', observou Nunes. A reportagem tentou entrar em contato com a superintendência do Consórcio Energético Cruzeiro do Sul, responsável pela construção da usina, mas ninguém foi localizado.

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