As delegacias regionais do Ministério do Trabalho em Maringá e Curitiba receberam ontem denúncia de trabalho escravo praticado pela Usina de Açúcar Cidade Gaúcha (Usaciga), em Cidade Gaúcha (a 130 km de Maringá). A fazenda pertence ao usineiro Júlio Barea Netto. O Ministério do Trabalho marcou audiência de conciliação entre as partes para às 15 horas de hoje, no Fórum de Cidade Gaúcha.
O bóia-fria Aloísio da Silva, 33 anos, acusou a direção da usina de não cumprir o contrato de trabalho, de maus-tratos e de trabalho escravo. Ele explicou que 174 bóias-frias do município de Junqueiro, a 120 quilômetros de Maceió (AL), foram agenciados em maio por um empreiteiro de nome João Batista. Ele teria prometido trabalho no corte de cana em fazenda no Paraná e salário mensal de até R$ 300,00.
‘‘Devido à seca e à miséria, topamos a jornada. Viajamos sete dias de ônibus, em três levas, com 64 de nós em cada carro. A metade veio de pé, revezando com os que estavam sentados. Para a viagem, recebemos R$ 30,00 cada um. Deixamos lá mulheres e filhos e a esperança de um dinheirinho para matar a fome’’, disse Aloísio.
Os 174 bóias-frias tiveram as carteiras de trabalho assinadas no dia 20 de maio. O trato com Júlio Barea, segundo Aloísio, era de receber, cada trabalhador, R$ 0,08 por metro de cana ‘‘deitada’’ (cana cortada, jogada no chão e depois medida por fiscal da usina). Nesse sistema, um bóia-fria poderia receber até R$ 5,12 se conseguir cortar 64 metros de cana por dia. Mas, segunda-feira, Barea Netto baixou o preço para R$ 0,05 o metro e exigiu que os bóias-frias empilhassem a cana a cada quatro metros de chão. ‘‘Isso baixou o ganho pela metade’’, reclamou Aloísio.
Numa reunião, Barea Netto alegou que o preço da cana havia caído no mercado. ‘‘Ele nos ameaçou. Disse que não queria baderna e que não ia dar alimento a cabra safado e que só daria comida se a gente aceitasse o preço e voltasse ao trabalho’’, contou Aloísio.
O Sindicato dos Agricultores de Cidade Gaúcha orientou o grupo de 25 bóias-frias a procurar um advogado em Maringá. Sem comida e alojamento, os 25 trabalhadores pediram dinheiro aos moradores de Cidade Gaúcha para viajar a Maringá.
Para trabalhar na Usaciga, os bóias-frias tiveram que pagar R$ 35,00 por mês pelas três refeições (uma xícara de café e um pão de manhã e almoço e jantar de marmita), R$ 6,80 pelo cobertor, R$ 16,80 por uma garrafa térmica, R$ 3,00 por uma lima e mais R$ 4,00 por um facão. Na tarde de ontem, segundo o advogado Gonçalves, mais 50 bóias-frias da Usaciga ficaram sem alimento e o alojamento foi fechado. Os 13 bóias-frias que chegaram a Maringá estão hospedados no Seminário Arquidiocesano.
O usineiro Ermeto Barea, irmão de Júlio Barea Netto, disse à Folha que recebeu a intimação do Ministério do Trabalho para a reunião de conciliação, hoje, e negou as acusações feitas pelos bóias-frias. Segundo ele, a usina tem 2 mil bóias-frias que ganham em média de R$ 11,00 a R$ 12,00 por dia. ‘‘Quem trabalha oito horas por dia recebe isso. Quem trabalha seis recebe menos. Temos relógio de ponto eletrônico na roça’’, explicou Barea.
Nove dos 25 bóias-frias que estão em Maringá pediram demissão ontem da Usaciga. O bóia-fria Aloísio da Silva disse que os demitidos não receberam seus direitos. O usineiro Barea garantiu que todos os direitos foram pagos. Ele afirmou que a usina trabalha com o sistema de ‘‘monte’’: o trabalhador corta a cana e depois a empilha a cada quatro metros.
Para Barea, há ‘‘agitadores’’ entre o grupo de bóias-frias que reclamou ao Ministério do Trabalho.Marcos NegriniCorte de salárioO grupo de bóias-frias acusa a usina de baixar o preço e mudar o sistema de medição do corte de canaMarccio W. Varella

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