Usina é acusada de incendiar fazenda
Edna Mendes
Enviada a Santa Mariana
O escritório regional do Instituto Ambiental do Paraná (IAP), em Cornélio Procópio, notificou ontem a Usina de Açúcar e Álcool Bandeirantes por causa de um incêndio provocado na Fazenda Dois Irmãos, na localidade Água do Óleo, em Santa Mariana (16 km a leste de Cornélio Procópio). A área é arrendada pela usina e o fogo se alastrou atingindo cerca de 160 alqueires da vizinha Fazenda São Jorge. Aproximadamente 130 alqueires de plantação de soja, mata ciliar e área de preservação foram queimados. A estimativa de prejuízo na Fazenda São Jorge é de R$ 150 mil. O caso também foi denunciado à Polícia Civil e ao Ministério Público.
Dois bóias-frias, que testemunharam o incêndio mas não querem ser identificados por medo de represálias, disseram à Folha que o incêndio teria sido provocado quando funcionários da usina queimavam a cana. Como ventava forte no momento, faíscas atingiram uma área de taboa que divide as duas fazendas e se espalhou pelo local. Eles disseram que dois tratores da usina ainda teriam tentado apagar o fogo, mas não conseguiram. Não havia caminhão-pipa.
Segundo a Polícia Civil de Santa Mariana, a usina também registrou queixa alegando que o fogo não partiu da queima da cana e sim de outro local desconhecido. A polícia abriu inquérito para apurar a causa e o autor do incêndio. O IAP já concluiu o laudo sobre o incidente, apontando que o fogo que atingiu a Fazenda São Jorge partiu da queima da cana feita pela usina. Segundo o IAP, o fogo seguiu para área de várzea e posteriormente atingiu a área de plantio da Fazenda São Jorge.
De acordo com a chefe do IAP, Fátima Roque, no dia seguinte ao incidente fiscais do órgão ainda flagraram fogo numa área paralela ao local de onde partiu o incêndio. Ela disse que a usina vai responder processo por crime ambiental. A situação da usina se agrava porque recentemente ela já foi autuada por provocar fogo no Parque Estadual da Mata Francisco. Além disso, a usina contraria todas as exigências para queima controlada, explicou. A multa a ser aplicada pelo IAP à usina pode chegar a aproximadamente a R$ 10 mil.
O arrendatário da Fazenda São Jorge, Genésio Andrade Camolesie, disse que ainda nesta semana vai ingressar com uma ação indenizatória contra a usina. Nós fizemos plantio direto em toda a área queimada e já havíamos aplicado herbicida, calcário e adubo. Tentamos vários contatos com a direção da usina para uma negociação sobre o caso, mas eles não nos atendem, reclama.
Camolesie disse acreditar que a usina também registrou queixa na polícia para tentar fugir da responsabilidade pelo incêndio. Tenho absoluta certeza que a usina agiu de má-fé registrando boletim de ocorrência. Devem ter sido orientados por advogados para tentar escapar da culpa. Já aconteceram outros casos semelhantes na região envolvendo a usina, afirma. Camolesie disse que, aproximadamente 30 minutos depois de o fogo ter acabado, funcionários da usina trouxeram um caminhão-pipa para o local.
O proprietário da Fazenda São Jorge, Edson Isper, disse que já foi constatado grande índice de mortalidade de peixes no Rio das Cinzas, que passa pela propriedade. Isso se deve aos resíduos químicos que a usina solta na água. Não é possível que esta usina fique impune a tantos crimes ambientais, revolta-se. O IAP está investigando o caso. A Folha esteve no local e constatou que árvores nas margens do rio foram atingidas pelo fogo até a copa.
Segundo Isper, há 17 anos não havia queimadas na fazenda e há cinco anos a área é utilizada para plantio direto. Agora não sabemos quais as condições do solo. Só vamos saber quando chover, explicou.Plantação de soja foi consumida pelo fogo; IAP diz que fogo começou no corte de cana; Usina Bandeirantes nega culpa
Fotos Carlos AlmeidaPREJUÍZOProprietário e arrendatário da Fazenda Dois Irmãos, em Santa Mariana, conferem os estragos causados pelo fogo e calculam que o prejuízo deve chegar a R$ 150 mil; testemunhas dizem que vento forte propagou o incêndio





