Técnicos da Copel se reuniram ontem à tarde na Câmara Municipal para dar explicações sobre o andamento dos projetos das usinas hidrelétricas de Jataizinho e Cebolão, ambas no rio Tibagi. Estiveram presentes vereadores, representantes do Ministério Público e também do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul). O prefeito em exercício, Alex Canziani, e o secretário de Obras do município, José Righi de Oliveira, também participaram da reunião.
Segundo Antônio Fonseca dos Santos, gerente da coordenadoria de impactos ambientais da Copel, o encontro faz parte do ‘‘programa de comunicação ambiental’’ e objetiva esclarecer a comunidade sobre os dois empreendimentos, principalmente a usina de Jataizinho, que está em fase mais avançada. ‘‘Mostramos qual a situação do empreendimento agora e também o que já foi feito em outras usinas’’, diz Fonseca.
No caso da usina de Jataizinho, a Copel já terminou os estudos de viabilidade técnica e econômica e só falta agora concluir o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e também o Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (Rima). A expectativa é que até o final de setembro os dois documentos já estejam prontos e aprovados pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP), que concede a ‘‘licença prévia’’ para que a obra seja licitada. A licitação, que deverá acontecer no final deste ano ou começo do próximo, é organizada pelo Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica. Já o EIA/Rima sobre a usina de Cebolão deve ficar pronto somente no começo do ano que vem.
Além de levantar os estudos iniciais, a Copel também pretende participar da concorrência. Quem oferecer energia elétrica ao menor custo ganha a concessão. A obra deverá demorar em torno de três anos e meio do início até a conclusão e custará cerca de R$ 200 milhões. Cada uma das usinas deverá gerar em torno de 150 megaherts de potência, o suficiente para suprir uma cidade como Londrina, por exemplo.
A discussão em torno da construção da usina hidrelétrica de Jataizinho tem provocado muita preocupação entre ambientalistas de diversas partes do estado e também do país. O motivo principal é o alagamento de parte da mata Doralice, uma das últimas áreas de vegetação nativa no Paraná e que apresenta espécies raras tanto para a fauna quanto para a flora brasileira.
Pelos estudos preliminares apresentados pela Copel, a situação ficaria a seguinte, após a construção da usina de Jataizinho: do total de 101,8 hectares, mais de 30% da mata primária (ainda intacta) ficará submersa. Em relação à mata secundária (não intacta), a situação é ainda mais crítica: do total de 66,7 hectares, 50 serão afetados pelo lago.
A Mata Doralice é estudada por diversos pesquisadores do estado e também de outras partes do país. Inclusive existe um projeto específico dentro da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O resultado desses trabalhos acaba sempre chegando a mesma conclusão, ou seja, a área é um exemplo raro da natureza nativa que habitava a região antes da devastação.
Recentemente, por exemplo, foi observado no local a águia-cinzenta, que há 90 anos não era vista no Paraná. Mas uma dessas espécies que habita a região poderia desaparecer antes mesmo de ser descoberta. É o pato-mergulhão, ave muito rara e que já foi considerada extinta mundialmente. Pesquisadores de Curitiba encontram a cada dia indícios mais fortes de que a ave habita a mata Doralice - inclusive já conseguiram gravar o ruído da ave.
Antônio Fonseca observa, porém, um outro lado da questão: os pesquisadores não têm certeza de que o pato-mergulhão sobreviveria na região se não houvesse a construção das barragens. O motivo seria o próprio processo de devastação que tem afetado a região nas últimas décadas. Por isso, ele acredita, programas de captura e criação em cativeiro, como foram feitos na usina de Caxias, por exemplo, podem dar um resultado mais positivo no sentido de salvar o animal.
‘‘Meu papel é tentar ver se tem solução ou não’’, afirma Fonseca. Ele observa que se não fossem os estudos feitos pelo EIA/Rima, patrocinados pela Copel, dificilmente seria possível a descoberta de animais como o pato-mergulhão, que poderia de fato desaparecer antes mesmo de ser descoberto.

mockup