Urbenauta conhece vida de antigamente
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de novembro de 1997
Elisa Marilia Carneiro 
Curitiba
Kraw Penas
Durante a passagem pelas colônias Augusta, Tomás Coelho e Marquetto, da Vila Augusta (região oeste da cidade), Fenianos experimentou hábitos de vida como nos dias de ontem (acima). Em ruas que nem sequer constam do mapa de Curitiba, encontrou descendentes de imigrantes: Os tatus, cotias e veados vêm comer as frutas que caem do pé (foto superior)
A concepção de cidade começa a mudar para o urbenauta Eduardo Fenianos. Percorrendo ruas inexistentes nos mapas da cidade, Fenianos ouve histórias de gente que vive nos arredores e que falam das pessoas que vivem em Curitiba. Viajando dentro da cidade desde o dia 2 de outubro, Fenianos vai percorrer todas as ruas, mapeadas ou não, dos 75 bairros de Curitiba. Nos primeiros 14 dias, o urbenauta navegou pelos cinco principais rios que cortam o município. Um relatório completo desta primeira etapa foi enviado para a Copel, Sanepar e Secretaria Municipal do Meio Ambiente.
Com a idéia de descobrir, desbravar e estudar aquilo que nós mesmos criamos - a cidade -, o primeiro urbenauta do mundo se surpreende com histórias de fantasmas e lendas de túneis feitos por jesuítas no final do século passado.
Ontem, Fenianos percorreu as colônias Augusta, Tomás Coelho e Marquetto, da Vila Augusta (região oeste da cidade), na divisa com Campo Largo. A colônia Augusta foi fundada em 1876 por descendentes de poloneses que até hoje convivem com biguás, garças, marrecos - que habitam a represa do Passaúna - e até com veados campeiros, que se encondem no que resta de mata ainda existente.
O modo de vida das pessoas que vivem aqui é evidentemente rural. As famílias aram a terra com boi de canga e se a gente fizer fotos de alguns locais muita gente vai achar que estamos no interior do Estado ou até na Amazônia, relata Fenianos.
Mesmo com vida tipicamente rural, todos os moradores das vilas, mesmo das mais afastadas, frequentam dois lugares: as lojinhas R$ 1,99 e as assembléias de Deus. Fiquei impressionado, por onde passo encontro pelo menos uma loja e uma assembléia, conta.
O que Fenianos mais tem feito é escutar as pessoas, conhecer um pouco os costumes e observar as condições de vida. Percorro tanto o centro da cidade e os bairros residenciais quanto a periferia. É interessante observar que quando estou no centro o tempo passa muito rápido, as pessoas se atropelam, os carros correm. A gente da periferia tem mais tempo para fazer suas tarefas e fazem tudo com mais prazer, observou.
E não é só isso. O urbenauta garante que a sabedoria popular supera muitas vezes as pesquisas científicas. Como exemplo ele cita que o caboclo sabe quando uma Araucária já está com seu tempo de vida esgotado e pode ser cortada, mas a lei proíbe qualquer corte.
A família de Helena Marquetto, de 76 anos, deu nome à vila Marquetto. No início, os descendentes de poloneses trabalhavam nas olarias às margens do Rio Passaúna. Com a desapropriação das terras, foram transferidos para áreas mais afastadas.
A travessa Bom Jesus, onde moram, foi batizada por eles mesmos emprestando o nome da igreja. Os filhos vivem ao redor e as casas não têm muro dividindo os terrenos. Todo o quintal é plantado com flores ou verduras. Na época das frutas, os tatus, as cotias e os veados vêm comer as frutas que caem do pé. E isso a poucos minutos das fábricas da Cidade Industrial.


