Urbanização de fundos de vale
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de março de 2002
Célia Polesel<br>Reportagem Local 
A ocupação e degredação dos fundos de vale são um problema enfrentado por todos os municípios. Londrina tem 41 fundos de vale dos principais rios na área urbana. Muitos servem de depósito irregular de lixo, outros foram invadidos por famílias carentes, loteados para a classe média e outros ainda abrigam mansões de alta classe. A busca por uma solução é antiga, muitos projetos e leis já foram feitos, mas foram poucos os resultados concretos.
Para falar sobre o assunto a organização da Feira da Construção Civil de Londrina (Feiracon 2002) traz a Londrina o arquiteto paisagista Benedito Abbud, de São Paulo, que faz palestra hoje, às 18 horas, no Centro de Eventos de Londrina. O tema da palestra é Fundo de Vale - A Urbanização Necessária e Possível. Abbud trabalha com arquitetura paisagística há 28 anos e os fundos de vale são um tema constante de estudo e debates. Em entrevista a Folha, por telefone, ele disse que, no Brasil, ainda são poucos os projetos de utilização e preservação dessas áreas.
Folha - O que é a arquitetura paisagística?
Benedito Abbud - É o planejamento da paisagem através dos espaços livres. E os fundos de vale são por excelência espaços livres. É através deles que você visualiza a cidade. E esse é o motivo principal da arquitetura paisagística se interessar pelos fundos de vale. Além disso eles são corredores de ventilação das cidades.
Folha - A Legislação Ambiental ajuda ou atrapalha na preservação desses espaços?
Abbud - A legislação veio ajudar e muito. Porque o recuo de 30 metros em cada lado dos córregos e 50 metros das nascentes preserva a vegetação e diminui a possibilidade de poluição dos locais. Além de dar espaço para os rios se acomodarem.
Folha - Londrina tem mais de 41 fundos de vale na área urbana isso é um privilégio? Como a cidade pode ao mesmo tempo preservar e usufruir desses espaços?
Abbud - É um privilégio desde que se tenha uma política voltada para o planejamento e uso desses espaços, transformando-os em lugares de lazer e recreação para a população. O problema das invasões dos fundos de vale só será resolvido com uma política social e conscientização da população que a preservação também é responsabilidade dela. Minha sugestão é que se verifique quais as regiões que ainda não foram invadidas e priorizá-las. E quanto as que já estão ocupadas fazer uma estudo sobre a melhor forma de utilizá-la preservando o fundo de vale e as pessoas que precisam de moradia digna.
Folha - Quais as vantagens para a população na transformação dos fundos de vale em espaços de lazer?
Abbud - A principal é a qualidade de vida que ganha muito e as pessoas estão cada vez mais conscientes disso e exigindo das administrações públicas espaços de qualidade para o lazer. Antigamente as pessoas tinham as praças onde se reuniam, era o espaço social. Hoje existem os shoppings que têm papel fundamental nesse contato social. Mas só isso cansa e muita gente quer outro tipo de lazer. Os fundos de vale cumprem esse papel quando são utilizados para a recreação, lazer e prática de esportes.
Folha - A preocupação com os fundos de vale é geral ou localizada? Há exemplo de casos bem-sucedidos?
Abbud - A preocupação com a preservação da natureza e com a qualidade de vida levaram todo o mundo a começar a pensar e discutir formas de preservar e ao mesmo tempo usufruir os ambientes naturais. Aqui no Brasil temos um bom exemplo que é o Parque Burle Marx (em São Paulo) onde as pessoas vão passear, caminhar, relaxar. Ele é administrado pela iniciativa privada através de uma fundação que garante a limpeza e segurança que hoje é fundamental.
Folha - A iniciativa privada obtém melhor resultado nesses casos do que o poder público?
Abbud - Em muitos casos sim. Acredito que o poder público deve buscar parcerias com a iniciativa privada, incentivando a adoção de áreas pelas empresas que podem usar isso no seu marketing.
Folha - O que é a urbanização necessária e possível para os fundos de vale?
Abbud - O ideal é o possível, o que pode ser feito no momento. Aos poucos é que nós iremos mudando a cultura, não adianta ser radical. O uso dos fundos de vale deve ser feito com os recursos disponíveis. Através de pequenas ações você chega lá. Mesmo que haja pouca verba, faça o que der, busque parcerias.
Folha - Qual o papel da educação nesse processo?
Abbud - A educação é fundamental e nesse aspecto as crianças são os nossos maiores aliados. Envolvendo as crianças e as escolas você consegue mudar a forma de ver e pensar a cidade.
Serviço
Feiracon 2002 - Feira da Construção Civil de Londrina. Aberta até 9 de março, das 16 às 22 horas no Centro de Exposições e Eventos. Entrada gratuita. Estacionamento: R$ 5. Informações (das 16 às 22 horas) pelo tel. 336-4919


