Pouco tempo depois de assistirem os cafezais sucumbirem ante o desastre natural da grande geada de 1975, os moradores de Uraí (26 km a oeste de Cornélio Procópio) presenciaram um novo ciclo de prosperidade proporcionado por uma planta ainda desconhecida, mas cuja fibra era muito valorizada pela indústria têxtil.
Já no início da década de 1980, o município era apontado como a capital mundial do rami. Mas, junto com a riqueza que a cultura proporcionou a alguns vieram as tragédias provocadas pelas máquinas conhecidas como ''periquito'' usadas na retirada da casca do caule que renderam um outro título nacional: a de ''cidade dos homens sem braço'', tamanho foram os casos de mutilações e amputações de trabalhadores rurais. Vinte e cinco anos depois, a Folha voltou à Uraí e conversou com alguns personagens dessa história.
Segundo levantamento feito pela Sociedade dos Ramicultores do Paraná em 1980, e que foi reapresentado agora pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Uraí, entre os anos de 1975 e 1980 foram registrados 539 acidentes de trabalho no processamento do rami no Estado. Destes, 60% teriam acontecido em Uraí. Com experiência acumulada desde aquela época, o diretor administrativo do sindicato, Wilson Ramalho Matta, aponta que apenas os casos mais graves entravam nas estatísticas oficiais. Os menos graves, como perdas de partes de dedos ou os frequentes cortes, não eram comunicados.
Para Matta, dois fatores explicam o elevado o número de tragédias na produção da fibra. O primeiro era a pouca segurança oferecida pelo maquinário. A abertura onde o rami era colocado para ser beneficiado na máquina ''periquito'' era grande demais e a distância até o facão (lâmina de corte) era muito próxima da boca. Quando a máquina puxava o caule da planta, muitas vezes a mão ou até mesmo o braço inteiro iam junto. O acidente resultava em graves lesões que geravam a necessidade de amputações. O segundo era a acirrada concorrência entre os trabalhadores, que diminuia os cuidados durante o manuseio da máquina. ''Eles ganhavam por produção e ninguém se preocupava muito com os riscos'', lamenta o sindicalista.
Na época áurea praticamente toda a população local estava envolvida com a cultura do rami e nem mesmo as crianças ficava a salvo da temível ''periquito''. ''Um dos últimos acidentes graves que eu me recordo foi com uma criança de 13 anos, que perdeu quase todo o braço esquerdo'', recorda Matta. Após Uraí ter sido ''considerada a campeã de acidentes de trabalho'', em 1980, o Ministério do Trabalho decidiu intervir. O máquinário foi modificado e as tragédias foram reduzidas em grande parte.
Uma das primeiras vítimas da máquina ''periquito'' na cidade foi o administrador de fazenda José dos Reis, hoje com 50 anos. Quando se acidentou, em 1974, ele tinha 19 anos e estava prestes a se casar. ''Nem consigo imaginar como aconteceu. Quando dei por mim já vi meu braço (direito) na boca da máquina'', relembra. O resultado: uma amputação na altura do cotovelo.
O agricultor diz que os ganhos com o rami nem de longe compensaram as dificuldades que teve após o acidente. ''Consegui me aposentar com meio salário mínimo e só depois de uns anos passei a ganhar um salário. Ganhei dinheiro mas era um serviço muito pesado. E o que é que tenho hoje do rami? Tenho só isso aqui'', fala apontando para a parte do braço que lhe restou. Mas em vez de se martirizar, Reis decidiu enfrentar os desafios impostos pela amputação. Entre outras coisas, reaprendeu a dirigir acoplando um suporte no câmbio do carro para o braço amputado. ''Disso tudo que passei, o que achei mais difícil foi voltar a escrever. Eu era direiteiro (sic) destro e tive que aprender a escrever com a mão esquerda'', diz. No quintal da fazenda onde hoje se cultiva uvas finas, a única lembrança que restou do rami é uma velha máquina chamada de ''moderna'', que substituiu a perigosa ''periquito''.
Outra das vítimas do rami foi Joaquim Francisco da Silva, de 62 anos. Como estava no hospital, se recuperando de um problema renal, sua história foi relatada pela esposa, Ilda Félix de Souza Silva, 57 anos: ''Ele me conta que ficou muito revoltado quando perdeu o braço (direito). Ele estava servindo o Exército, foi passar um final de semana no sítio de um cunhado e acabou enfiando a mão na máquina periquito''. Foi indenizado e passou a trabalhar como representante de indústrias de tecido na região. Depois, conseguiu um emprego como fiscal da Prefeitura mas começou a ter problemas de pressão alta e nos rins.
Já Claudemir Gomes de Souza, 35 anos, não tinha nem atingido a maioridade quando perdeu a mão esquerda. Ele diz que começou a trabalhar nas lavouras de rami com apenas oito anos e nem a ''experiência'' acumulada lhe serviu como arma contra os perigos da atividade. Uma das últimas vítimas da ''periquito'' na cidade, o rapaz relembra exatamente que tudo aconteceu numa fria manhã de inverno do dia 1º de junho de 1987. ''Tinha 17 anos e foi tudo muito rápido. Quando vi, minha mão estava pendurada e tive que amputar'', aponta. ''Capoeirista desde que nasceu'', ele sobrevive hoje com o salário mínimo que recebe pela invalidez e de alguns ''bicos'' eventuais. ''De vez em quando bate uma revolta, mas procuro nem pensar muito nisso'', conclui.

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