Mais duas construções da época da colonização de Londrina serão demolidas. Desta vez, porém, a história não vai se perder. Nas próximas semanas, alunos do curso de arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) vão desmontar, medir, analisar cada detalhe, documentar e transplantar para o campus as casas localizadas desde a década de 30 no número 65 da Rua Anita Garibaldi, no chamado centro histórico. Os imóveis construídos lado a lado vão abrigar na universidade o curso de pós-graduação em Reabilitação e Regeneração do Patrimônio Cultural.
Uma das casas já foi desocupada, a outra deve ficar desabitada em breve, mas ainda não há data para a transferência das construções. ''Será um trabalho minucioso'', informa o professor responsável pelo projeto e coordenador da pós-graduação, Humberto Yamaki. Ele conta que os estudiosos da área estavam de olho nas casas há algum tempo. Por estarem localizadas em área nobre da cidade e ocuparem um grande terreno, era previsível o risco de serem demolidas. Assim que a venda do terreno se concretizou, a universidade propôs a manutenção das edificações.
''Aceitamos a proposta porque tudo ia ser destruído e desaparecer. Assim, meus netos - que eu tenho certeza vão estudar na universidade - vão poder passar por lá e conhecer a casa onde seus pais nasceram e foram criados'', diz, orgulhoso, Masato Hirazawa, 87 anos, prestes a deixar a residência onde morou nas últimas cinco décadas. A família vai se mudar para um imóvel na mesma rua, a poucos metros do antigo endereço. No terreno que abriga as emblemáticas contruções, de 1,3 mil metros quadrados, deve ser erguido um prédio residencial.
Originalmente a casa de Hirazawa era um barracão, que foi reformado e transformado em residência na década de 60. Até então sua família e a do cunhado, Shigueharu Kitahara, moravam juntas no imóvel maior. ''Da Rua Alagoas para cá só tinha chácaras, que foram loteadas pelo sr. Agari'', diz Hirazawa, referindo-se ao pioneiro imigrante japonês Paulo Agari, que empreendeu uma série de loteamentos na cidade e construiu os imóveis que foram adquiridos pelas famílias Hirazawa e Kitahara.
As casas que serão transferidas para a UEL são inteiramente construídas em peroba e chamam a atenção pelo bom estado de conservação. A construção maior e mais antiga é caracterizada por telhado em estilo kabuto (que se assemelha ao capacete dos samurais). No interior, ambas possuem características marcantes, como forros com detalhes em alto relevo e rendilhados feitos a partir de ripas de madeira, num capricho de carpintaria. ''Provavelmente na hora de desmontar ainda vamos descobrir muitos outros detalhes, como os tipos de encaixe da madeira'', observa o professor da UEL.
Externamente, o jardim que já começou a ser 'desmontado' sempre funcionou como um pequeno paraíso. Maria Kazuko, uma das filhas de Hirazawa, lembra que existia um grande canteiro de camélias, pés de matsu (planta típica do Japão), um espelho d'água com carpas e uma variedade de outras plantas. As enormes jaboticabeiras, plantadas 70 anos atrás, ainda estão lá. A família doou a maioria das plantas ornamentais para a comissão organizadora do Imin 100 - festa de 100 anos da imigração japonesa - para que elas sejam replantadas na Praça Tomi Nakagawa, a ser construída na área central da cidade. Segundo Maria, o tio passava grande parte do dia cuidadando do jardim, que chamava a atenção de quem passava pela rua.
De acordo com Yamaki, a proposta, ao transplantar as casas para o campus da universidade, não é restaurá-las, mas preservar o caráter das construções, fazendo apenas os ajustes necessários. ''O importante desta iniciativa é que muitos aspectos das construções dos anos 30 poderão ser estudados e esclarecidos. Mesmo as reformas e modificações que foram feitas nas casas revelam características de cada época'', argumenta. As casas das duas famílias pioneiras serão reconstruídas ao lado da Central de Salas, próximo ao Centro de Tecnologia e Urbanismo (CTU).

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