Milton DóriaA porta de saídaUEL quer identificar motivos da desistência de cursos - que chega a 40% - para evitar novos abandonosUniversidade luta contra desistências

Por que tantos estudantes abandonam a universidade? Há motivos diferentes para cada caso: falta de dinheiro, insatisfação com o curso, dificuldade em conciliar trabalho e estudo. A Universidade Estadual de Londrina (UEL) tenta identificar as causas da evasão e reduzir o prejuízo social causado pela saída de alunos

A Universidade Estadual de Londrina (UEL) quer conhecer os motivos da evasão de estudantes e tentar diminuir os abandonos de cursos. Com esses objetivos, a UEL tem feito projetos para diagnosticar as causas da desistência de alunos e corrigir problemas pedagógicos da graduação. Mas ainda falta muito para eliminar o problema.
Os números preocupam. As universidades e faculdades públicas do Paraná formaram 7.518 alunos em 1996. Desses, 1.975 abandonaram a escola. Os dados são da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Estado. Na UEL, 719 alunos desistiram de continuar na escola em 96. O professor Luiz Carlos Bruschi, diretor de acompanhamento e avaliação institucional da UEL, estima que a evasão dos alunos da universidade esteja entre 37% e 40%, número que coincide com estudo recentemente divulgado pelo Ministério da Educação em todo o Brasil.
Milton DóriaEvasão desigualCursos de licenciatura têm mais abandonos que os da área de saúdeLevantamento recente aponta que um dos cursos que teve a maior média de evasão em 1997 foi o de ciências sociais: neste período, de um total de 265 alunos matriculados, 29 desistiram. Se forem considerados os alunos jubilados (que não terminaram o curso no prazo máximo previsto) e as transferências, o número sobe para 40. Outro curso com grande número de evasão é o de filosofia. Em 97, havia 112 alunos matriculados - 18 desistiram.
Na outra ponta da evasão estão cursos como farmácia, direito e medicina veterinária, com índices baixos. No primeiro caso, de 243 matriculados em 97, quatro (uma desistência e outro aluno transferido) deixaram a UEL. Em direito, a relação foi de 1.125 alunos matriculados para somente 15 evadidos. Medicina veterinária, 332 matrículas para somente quatro desistências.
A diretora de apoio à ação pedagógica da CAE, professora Elsa Maria Mendes Pessoa Pullin, destaca, no entanto, que é preciso definir muito bem os critérios sobre o que é evasão escolar e vaga ociosa. Caso contrário, ela diz, corre-se o risco de classificar numa estatística como aluno evadido aquele que ainda tem possibilidades legais para retornar à universidade.
Na UEL, por exemplo, o aluno que abandona o curso depois de confirmar matrícula tem a chance de, no ano seguinte, reaver a vaga. E mesmo que este mesmo aluno faça matrícula no outro ano e abandone mais uma vez, existe ainda uma última chance, no ano seguinte, de que ele se matricule e continue a fazer o curso. Só depois de esgotadas todas essas possibilidades, a vaga é ‘‘perdida’’ - ainda que possa, a partir de então, ser preenchida por transferência interna ou externa.
Desde 92, todo aluno que vai cancelar matrícula na UEL precisa justificar a saída da universidade. A partir das questões levantadas por ex-alunos, a universidade pretende melhorar os cursos e evitar novas baixas.
Há três anos também é aplicado um questionário que relaciona ao aluno, para ele indicar, os seguintes motivos da saída: familiares, financeiros, de saúde, mudança, trabalho, qualidade do curso e outros. No mesmo questionário, a CAE esclarece para o aluno que, cancelando a matrícula, ele perde qualquer vínculo com a UEL e só poderá voltar ao curso por novo vestibular.
A professora Gianna Lepre Perim, coordenadora de Assuntos de Ensino, observa que parte significativa dos abandonos está relacionada com o trabalho: a pessoa não consegue conciliar o emprego com a escola e acaba optando pelo primeiro. Ainda assim, na hora da justificativa, o aluno - muitas vezes por constrangimento - alega somente ‘‘motivos pessoais’’ para o abandono.
O levantamento feito pela CAE, no entanto, esbarra num problema: só atinge os alunos que se dirigem à CAE para cancelar a matrícula. A maioria dos alunos evadidos, no entanto, simplesmente abandona o curso e não dá mais satisfações à UEL.
O professor Luiz Carlos Bruschi aponta que a universidade precisa criar com urgência instrumentos para buscar o aluno que abandona a escola e conhecer o motivo da evasão. Somente assim - diz Bruschi - será possível ter uma idéia mais nítida do problema.
Na opinião de Bruschi, um dos grandes problemas que a evasão traz é o prejuízo social. Praticamente não existe maneira de recuperar a vaga do aluno que abandona o curso. Quando o aluno se matricula em um curso e depois o abandona, já ocupou a vaga de outro que queria estudar. Depois do primeiro semestre do curso, essa vaga dificilmente será preenchida: na maioria das vezes fica ociosa.
O professor Bruschi comenta também que não existe na universidade um estudo detalhado para saber quanto custa cada aluno para a instituição. O que se costuma divulgar é a simples relação ‘‘número de alunos para cada professor’’, o que para ele não aponta com exatidão o valor. Isso porque existe uma série de variáveis que diferenciam um curso de outro. ‘‘Quanto maiores as atividades práticas do curso, por exemplo, mais caro ele vai ser.’’
Sobre os motivos da evasão, Bruschi também faz algumas análises. Ele nota, por exemplo, que a maioria dos abandonos acontece em cursos de licenciatura, nos quais o aluno estuda para ser professor. ‘‘Há coisas que não dá para evitar. O problema da licenciatura é que não há no País uma política de incentivo à formação de professores’’, diz. Por isso, pouca gente se sente motivada para continuar estudando e se tornar professor em um mercado de trabalho que não valoriza a profissão. O aluno de medicina ou engenharia, ao contrário, teria estímulo maior porque estas profissões apresentam - pelo menos aparentemente - oportunidades melhores.
Bruschi destaca ainda que é função da universidade pública oferecer cursos como os de física, química, matemática ou filosofia. Esses cursos têm grande evasão e, por isso mesmo, não há estímulo das escolas particulares em oferecer esse serviço. ‘‘Se não for a universidade pública, quem vai formar físicos, matemáticos, químicos, filosófos?’’

mockup