Universidade encastelada já acabou
Marcos NegriniCrítica e
reflexãoProfessora Sílvia, coordenadora do encontro: Universidade é o local privilegiado de reflexão para as respostas à comunidadeUniversidade encastelada já acabou
Marccio W. Varella
O que fazer para evitar que as cidades de médio porte tenham os mesmos problemas dos grandes centros urbanos? É para responder a esta pergunta que 80 cientistas, pesquisadores e especialistas de todo o País estarão reunidos em Maringá durante a 6ª Reunião Especial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).
Cerca de 2 mil convidados do Paraná e de outros estados estão sendo esperados para o encontro, que é aberto ao público e vai ter conferências, 17 minicursos e simpósios nas áreas de urbanismo, saúde, educação, meio ambiente, cultura e lazer.
Maringá foi escolhida para sediar a reunião por causa da qualidade de vida que oferece, da grande área verde por habitante que possui, da diversidade étnica que representa e principalmente devido à importância do trabalho dos pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM), que organiza e coordena o encontro.
O tema da reunião, Cidades de Médio Porte, foi definido no ano passado, depois de cinco encontros consecutivos em que foram debatidos problemas relacionados ao ecossistema.
A professora Sílvia Vasconcelos, 43 anos, coordenadora do Escritório de Cooperação Internacional da UEM e doutora em letras, é quem está coordenando a reunião da SBPC. Para ela, a universidade é o local privilegiado de reflexão para as respostas à comunidade. Em entrevista à Folha, a professora Sílvia falou desta e de outras preocupações dos professores, cientistas e pesquisadores em relação às comunidades:
Folha - Dentro do tema central, que questões serão discutidas?
Sílvia - Vamos debater a questão do trânsito, da saúde coletiva, da saúde da mulher, da criança, da violência urbana, do saneamento urbano, do lixo. Em todas essas questões haverá um foco centrado sobre Maringá, mas a discussão é sobre qualquer cidade de médio porte, pois os problemas geralmente são os mesmos. A discussão levará em conta o perigo que essas cidades correm se não planejarem bem o seu desenvolvimento. Vamos estabelecer um critério para avaliar se uma cidade é ou não de médio porte. Será que Maringá é uma cidade de médio porte? O esforço será para discutir as cidades que estão começando a apresentar problemas e assim evitar os problemas encontrados hoje nas grandes cidades.
Folha - Quando uma cidade começa a apresentar problemas?
Sílvia - Não sou uma especialista em cidades, mas o que tenho ouvido é que uma cidade começa a ter problemas quando você não tem mais tempo de almoçar em casa. O que significa que você está recebendo uma carga tão grande de trabalho e o fluxo do trânsito também já é tão grande que lhe impedem de atravessar a cidade de carro para fazer o seu almoço. Esse é um dos indicadores, mas não é o único. Por isso temos de cuidar do trânsito, da educação do motorista, do saneamento básico. A falta de saneamento gera epidemias, o que sobrecarrega o tesouro. Tem que fazer prevenção. Temos que cuidar da mulher, porque se ela é vacinada ela gera crianças saudáveis. Temos que pensar nas populações que poderão crescer demais, na possibilidade de favelização. Vamos ter um simpósio específico sobre o discurso da cidade. Vão debater os pesquisadores da semiótica, da linguística, que vão analisar os sentidos das erupções da cidade, dos conflitos, dos limites, do muro, do estrangeiro.
Folha - Como a universidade pode participar deste processo de mudança?
Sílvia - A universidade hoje está sendo assediada pela população com seus problemas. Aquela idéia de que a universidade estava encastelada já acabou. Hoje nós fazemos pesquisas que respondem aos problemas sociais. Agora dizer que que a universidade deve responder a todas as questões, não sei. Mas deve, isto sim, ajudar na busca das respostas. O processo é inevitável. Algumas universidades têm mais condições do que outras de fazer isto. Mas queira ou não o ministro da Educação, queira ou não o governo, a universidade é o local privilegiado de reflexão para as respostas. É o único local que faz a crítica sobre a reflexão. Para você saber se um cidadão está mais ou menos engajado na comunidade, um instituto de pesquisa ou uma equipe de governo pode lhe dar esta resposta. Mas a reflexão sobre se essa resposta é boa ou não só pode ser feita na instituição que se chama universidade. Não há como questionar isto. É a academia que faz essa análise crítica.
Folha - A opinião da universidade é respeitada?
Sílvia - Eu diria que depende do momento político. Se politicamente não interessa que as universidades sejam ouvidas, normalmente elas são desconsideradas. Se há necessidade de uma consulta a um grupo de pesquisa, imprensa. governo e outras entidades vêm e perguntam aos componentes da academia qual a melhor resposta. Se o momento político é para desagregar a universidade, para atender a outros interesses, então qual é a tendência discursiva disto? E depois vêm dizer que a universidade não dá resposta, que é lenta no seu trabalho, que demora para se agregar.
Folha - Falta à universidade um meio de comunicação mais eficaz para que a população possa entender a resposta da universidade a essas questões?
Sílvia - Falta sim, e seria fundamental. Além de ter um canal de televisão, a universidade deveria ter o jornalista científico, que nós ainda não temos no Brasil. Há um impasse entre o discurso do cientista e o discurso de vulgarização científica no melhor sentido da palavra. O máximo de especialização que temos no Brasil é o jornalista esportivo, econômico e político. Mas o jornalismo científico ainda é uma lacuna em termos profissionais. O cientista tem uma linguagem hermética porque trabalha com conceitos que se não forem precisos o fenômeno dele pode ser mal estudado. Ele necessita da precisão vocabular. Se ele adapta a sua fala ao público a própria comunidade científica o pressiona. Então ele fica numa situação muito difícil pelo fato de ter vulgarizado demais a linguagem. Aí entra o jornalista científico; a Unicamp já percebeu isto e quer abrir uma especialização na matéria.





