Unidade escolar de Londrina será transformada em centro agrícola
Proposta de centro profissionalizante se arrasta desde 2013; expectativa agora é que se transforme no 1º colégio de tecnologia agrícola do Brasil
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de abril de 2025
Proposta de centro profissionalizante se arrasta desde 2013; expectativa agora é que se transforme no 1º colégio de tecnologia agrícola do Brasil
Heloísa Gonçalves 

Doze anos após o início da construção do CEEP (Centro Estadual de Educação Profissional), a obra na zona norte de Londrina está com nova previsão de entrega, para fevereiro de 2026. Inicialmente proposto como centro profissionalizante geral no Jardim Primavera, o escopo da unidade foi alterado para o nicho da agricultura no ano passado, com a mudança do nome para CEEPA (Centro Estadual de Educação Profissional Agrícola).
Renato Hey Gondin, coordenador dos Colégios Agrícolas e Florestais na Seed (Secretaria de Estado da Educação), informou que a alteração “foi uma forma de atender às necessidades do arranjo produtivo local”. Ele considerou que a cidade é berço de empresas voltadas ao agronegócio, demandando um colégio agrícola há anos, mas é “carente de instituições que formassem mão de obra para o setor”.
O projeto atual tem custo de aproximadamente R$ 20,7 milhões, sendo executado pelo Fundepar (Instituto Paranaense de Desenvolvimento Educacional) desde a primeira versão, em 2013. O terreno tem cerca de 12 mil m², e a construção dos quatro blocos planejados irá ocupar 5 mil m². O espaço deve abrigar 12 salas de aula, laboratórios pedagógicos, refeitório, pátio coberto, biblioteca, anfiteatro, quadra poliesportiva e sala multiuso. O número de alunos atendidos deve ser de cerca de 700.
A reportagem esteve no local da obra, que está entre 17% e 20% concluída. A terraplanagem e a base da infraestrutura estão prontas, com três blocos na fase de alvenaria e o quarto na montagem de pré-moldado. Nas próximas semanas, o último andar das salas de aula e auditório, estruturas mais adiantadas, será coberto, segundo o Fundepar.
CAPACITAÇÃO
Gondin explicou que os colégios agrícolas tradicionais formam jovens para trabalhar no campo, exercendo funções como operadores de equipamentos ou no manejo de animais e lavouras, mas que isso não é suficiente para Londrina. Com a implementação de novas tecnologias, surge a necessidade de profissionais capacitados para a sua gestão.
“O foco agora é na tecnologia do agro, buscando jovens habituados ao uso de telas e com facilidade em lidar com softwares para atuarem como suporte ao agronegócio. O Agrotech, denominação do novo colégio, visa formar jovens com foco nisso”, pontuou o coordenador.
A graduação técnica, voltada a estudantes do Ensino Médio, inclui atuação em áreas como biotecnologia, melhoramento genético de sementes e desenvolvimento de softwares de gestão de negócios, além de capacitação em operação e manutenção de drones.
Os alunos terão contato com equipamentos agrícolas, como tratores, colheitadeiras e plantadeiras, que serão desmontados e montados durante as aulas. “O Agrotech busca reduzir a dependência de tecnologias importadas e, quem sabe, que os nossos alunos se capacitem para desenvolver as próprias soluções. A ideia é gerar empregos e oportunidades para os estudantes”, disse Gondin.

ANOS DE ESPERA
A obra, na esquina da rua Guilhermina Lahman com Lino Sachetin, foi iniciada em 2013, sendo paralisada no ano seguinte com apenas 19% de execução, após a empresa contratada ser alvo de suspeitas de irregularidades no âmbito da operação Quadro Negro.
Houve retomada em 2022 por parte de uma empresa de Cascavel (Oeste), com contrato de R$ 15,1 milhões. Após somente quatro meses de construção, com parte da área aterrada e algumas paredes levantadas, houve nova interrupção. Na época, moradores informaram à FOLHA que o espaço ficou tomado por mato alto e lixo.
Em maio de 2023, o Fundepar informou que, após a conclusão de um laudo estrutural, “foram identificados problemas com a fundação executada previamente, uma vez que não garantia a estabilidade das edificações”. Diante disso, as fundações teriam que ser refeitas, por meio de novas aprovações dos órgãos competentes, como a Prefeitura e o Corpo de Bombeiros, e adequações nos projetos arquitetônicos e complementares. O Instituto garantiu que seguiria com a construção, com previsão de retorno para o segundo semestre do mesmo ano.
Somente em maio de 2024 a obra foi reiniciada, após a contratação de outra empreiteira por meio de licitação. Agora com o foco agrícola e mais R$ 5 milhões no orçamento, o prazo estimado para entrega do CEEPA é fevereiro de 2026.

INCERTEZAS
Nos doze anos de incertezas envolvendo o terreno, a vizinhança sofreu com as consequências do estado de abandono. Vandete Bittencourt, aposentada, acompanha a “novela” em sua rua desde o início, e relembrou de quando o espaço foi alvo de roubos. “Fizeram uma casa para os funcionários de outras cidades, mas os ladrões levaram as madeiras, o telhado, a caixa d'água. Tudo que eles colocavam aí, pago com nossos impostos, eles levavam”.
A moradora disse ainda que no ano passado, antes da retomada da construção, o local era "ninho de animais" e alvo de descarte irregular de resíduos. “Tinha cobra, sapo, escorpião vindo para as casas, uma (cobra) coral entrou na minha casa e tive que matar, sorte que não pegou a minha cachorra”.
Outra reclamação da idosa é referente a sujeira causada pela construção. “O que mais atrapalha é essa terra, o pó. Eu tenho problema de saúde no pulmão, dá trabalho pra mim que eu passo mal, mas agora parece que está menos”.
A aposentada Lourdes dos Santos mora no Jardim Primavera há mais de 30 anos, e disse que foi “doído” presenciar as recorrentes interrupções da obra. “A gente ficou na expectativa que iam ser coisas boas, mas no fim parou tudo. Agora já é a terceira vez que estão aí, eu não estava acreditando que ia pra frente, mas devagar está indo e eu acredito que agora sai”, almejou.
As duas esperam que o colégio de tecnologia agrícola traga benefícios aos jovens contemplados, mas disseram “acreditar” somente após a entrega das chaves. O Fundepar prevê a finalização de mais quatro unidades no Estado até o fim de 2025, incluindo a obra em Ibiporã, Região Metropolitana de Londrina.


