O edifício Harmony Palace seria apenas mais um condomínio residencial de Curitiba não fosse um detalhe singular: a empresa que financiou o projeto não concluiu o prédio e os proprietários tiveram de arcar com as consequências. E eles foram à luta. Apesar da bancarrota da construtora Encol, que deixou 42 mil mutuários sem apartamento em todo País há dois anos, os moradores assumiram o reinício das obras. Pagaram mais caro, mas viram o sonho da casa própria tornar-se realidade.
A funcionária pública Lourdes Girardello, 42 anos, não acredita no que vê. Os filhos estão calmamente na sala, aproveitando as férias escolares e assistindo programas na tevê a cabo. A empregada circula pela casa e, nos quartos, dois marceneiros se encarregam de montar os novos armários. ‘‘Isso aqui parece um sonho. Ainda não acredito que estou aqui dentro’’, diz Lourdes, sem esconder a emoção diante do cenário, real e fruto de um esforço de dois anos e meio para não perder o investimento de R$ 120 mil.
Com previsão para ser entregue em maio de 1996, o Harmony Palace só foi inaugurado em dezembro passado. Quando o rombo de caixa da Encol veio à tona, em 1997, o condomínio estava com 80% das obras concluídas, fato que ajudou na conclusão do condomínio. Os donos dos apartamentos não perderam tempo. Em novembro do mesmo ano, fizeram uma assembléia e destituíram a Encol. Da decisão surgiu a Associação dos Proprietários do Edifício Harmony Palace. Com a Encol fora do processo, a entidade ganhou autonomia para negociar o término das obras com o banco Sudaméris - credor hipotecário da construtora.
Marcelo AlmeidaLourdes Girardello não cabe em si de contente com a nova casaO administrador Otávio Almeida da Fonseca, 52 anos, vive momentos de expectativa. Fonseca desembolsou R$ 30 mil a mais na conclusão de seu apartamento, a sua primeira casa própria. Ele tem parcelas mensais de R$ 1.200,00 para pagar pelos próximos 15 anos. O administrador não tem medo do desafio e está pensando em vender o apartamento, apesar da ‘‘vitória’’ que diz ter conquistado. ‘‘A gente tem de esperar um pouco para ver como o mercado vai se comportar’’, afirma. Dos 40 apartamentos do Harmony Palace, apenas quatro estão ocupados. Os outros foram colocados à venda ou para aluguel. A funcionária pública Lourdes Girardello diz que muitos proprietários decidiram recuperar o investimento a mais que foram obrigados a fazer para não ficar no prejuízo.Marcelo AlmeidaOs proprietários do edifício Harmony Palace levaram um calote mas deram a volta por cima: juntos, tomaram o empreendimento nas mãos, negociaram com o banco e conseguiram não abandonar o sonho da casa própria
A Encol deixou, só em Curitiba, 38 condomínios inacabados. Mas alguns mutuários foram à luta

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