Londrina – O esgoto corre a céu aberto pela Rua dos Farmacêuticos, no Jardim União da Vitória, extremo sul de Londrina. Caminhando pelo bairro, desviando de poças e lama, Analdina Maria de Jesus, de 64 anos, observa as placas: Rua dos Panificadores, Comerciantes, Arquitetos, Jornalistas. Ela fecha os olhos e tenta imaginar a profissão que escolherá cada um dos oito netos que cria. "Meu sonho é que todos possam estudar e que tenham um futuro melhor", comenta.
O problema é que as dificuldades são muitas, a começar pela precariedade do casebre onde mora. Há 17 anos, ela juntou alguns pedaços de madeira e começou a construir um barraco. Com o aumento da família, precisou ampliar a moradia improvisada. A chuva e o vento ultrapassam com facilidade as frestas entre as madeiras e os buracos nas telhas de amianto. A umidade da terra desnivelada também incomoda. Apesar de ser nome de rua próxima, arquiteto para ela é um sonho distante. "Só a calçada de cimento que foi um genro que fez, mas toda a madeira eu empilhei, preguei, amarrei", orgulhou-se. "Tem gente que tem vergonha de dizer que mora em barraco. Eu não, fiz tudo honestamente", completa.
Das oito crianças com idades entre 2 e 12 anos, seis são da mesma filha, que separou-se do marido e deixou as crianças com Analdina. Os outros dois netos são de outra filha que mudou-se para São Paulo. Da aposentadoria de um salário mínimo que recebe, 30% estão comprometidos com um empréstimo que fez para ajudar parentes. Em meses mais difíceis, recebe ajuda de entidades assistenciais e voluntários. O drama de Analdina e dos netos chamou a atenção de três projetos sociais que trabalham juntos em ações com moradores em extrema condição de vulnerabilidade: Casa Alabastro e Centro Voluntário, de Londrina, e Doações Aqui, de Cambé. Nesta semana, eles levaram brinquedos e doações para a família de Analdina.
Histórias como a da aposentada com oito netos motivaram a microempresária Mariane Rodrigues de Carvalho. Ela, que trabalhava no Hospital do Câncer, ingressou na causa do voluntariado há três anos, apesar de todas as dificuldades. "Este caso nos comoveu bastante, são pessoas que precisam de ajuda não só do governo", avalia. Sem espaço adequado, Mariane não deixa de amparar quem precisa de fraldas, leite, medicamentos e brinquedos. A Casa do Alabastro funciona há dois anos, tem dez voluntários fixos e atende cerca de 750 crianças carentes e pacientes de câncer em todas as regiões de Londrina.
Com os número de ações crescendo em ritmo acelerado, a casa onde mora já não dá mais conta em abrigar a sede do projeto. Mariane encaminhou vários ofícios à Prefeitura de Londrina, entidades e até mesmo pessoas físicas. "Precisamos de uma sede para continuar com os trabalhos. Um barracão seria ideal. Contamos mais uma vez com a solidariedade das pessoas", faz o apelo.
Recentemente, Mariane firmou parceria com Patrícia de Souza Duarte, que há dois anos toca o projeto Doações Aqui, em Cambé. Patrícia conta que começou ajudando os vizinhos necessitados e quando viu, já estava com uma grande demanda de casos para atender. Em comum, as duas utilizam a internet para conseguir arrecadações e organizar eventos. "A internet é uma ferramenta muito útil, temos conseguido despertar a solidariedade das pessoas com pedidos de ajuda para quem necessita", conta Patrícia.

DOAÇÕES
A Casa do Alabastro está fazendo arrecadação de ovos ou barras de chocolate e brinquedos para entregar para crianças carentes nesta Páscoa. Do total de 750 ovos que pretende distribuir, 240 já foram arrecadados. "Quanto mais doações conseguirmos, melhor. Assim, levamos mais alegria para quem já tem uma vida difícil." Já os moradores de Cambé podem entrar em contato com o Doações Aqui.

SERVIÇO:
Casa Alabastro. Rua Coimbra, 254, Jardim Piza, Londrina. Fone: (43) 3351-3986.

Doações Aqui. Rua Bento Munhoz da Rocha, 469, Jardim Castelo Branco, Cambé. Fones: (43) 3154-8315 e 9901-1549.

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