Ney de SouzaO novo presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Ricardo Cappelli, defendeu ontem, em Foz do Iguaçu, uma avaliação mais completa das universidades brasileiras, que funcionaria como alternativa ao Exame Nacional de Cursos, conhecido como provão.
Além do formando, a alternativa proposta pela UNE levaria em conta também a qualidade das instalações físicas, dos professores, dos recursos didáticos e os projetos de pesquisa de cada instituição de ensino superior.
Militante do PCdoB e ferrenho crítico do ministro da Educação, Paulo Renato Souza, Capelli anunciou que a entidade continuará atacando o provão e a política educacional do governo Fernando Henrique Cardoso.
Na sua opinião, a falta de vagas nas instituições públicas obriga os estudantes a pagar cursos privados. Ele próprio é um exemplo disso: está no terceiro ano de Processamento de Dados na Universidade Estácio de Sá, uma instituição particular do Rio de Janeiro.
Cappelli foi eleito presidente da UNE no dia 6, no encerramento do 45º congresso da entidade, em Belo Horizonte. Ele sucede o baiano Orlando Silva Júnior, em um mandato de dois anos.
Seu primeiro compromisso formal como principal líder estudantil do País foi participar de um encontro de Diretórios Centrais de Estudantes (DCEs), realizado no final de semana, em Cascavel. De passagem por Foz do Iguaçu, para tomar o avião de volta ao Rio, Cappelli concedeu a seguinte entrevista à Folha.
Folha - A UNE está se posicionando como uma opositora ferrenha ao provão. Na sua gestão, essa postura vai continuar?
Ricardo Cappelli - A UNE é contra o provão, mas defende a avaliação dos cursos. Por defender a avaliação e a qualidade das universidade é que ela é contra o provão. O exame não avalia as universidade. Pelo contrário, mascara a avaliação. A UNE defende uma avaliação que leve em conta o conjunto das universidades: o corpo docente, laboratórios, projetos de pesquisas.
Folha - Na sua opinião, uma avaliação do aluno no final do curso não é uma forma eficaz de testar a qualidade dos professores e a estrutura da universidade?
Cappelli - Não. O provão, da forma como está sendo feito, está piorando a qualidade do ensino no País porque está transformando os últimos períodos dos cursos em cursinhos preparatórios para o provão. Isso acontece principalmente nas instituições privadas. O objetivo da instituição está deixando de ser a formação profissional e acadêmica mais qualificada do estudante e está passando a ser a nota que ele vai tirar no provão. Essa nota está servindo de parâmetro para a sociedade verificar se aquele curso é bom ou ruim.
Folha - Como isso está ocorrendo?
Cappelli - Temos casos gaves, inclusive de instituições que estão alterando o currículo. Retiram duas ou três matérias do currículo para incluir nessas vagas matérias que são, na verdade, cursinhos pré-provão. Isso vem acontecendo principalmente nas universidades privadas. Mas a partir do momento em que o MEC passar a usar o ranqueamento das universidades públicas como critério para a distribuição de verbas, elas também vão entrar nesse processo.
Folha - Que alternativas a UNE pode apresentar ao provão?
Cappelli - A linha é uma avaliação mais global, que leve em conta os diversos momentos da universidade. O primeiro passo é uma auto-avaliação, que envolva todos os setores: projetos de pesquisa, extensão, bibliotecas etc. Depois, um processo externo de avaliação, que pode ser composto por entidades da sociedade civil afins, conselhos profissionais regulamentadores da profissão, e inclusive com a participação do MEC. Agora vamos buscar as associação de reitores das universidades federais, os docentes, os servidores e os conselhos profissionais e materializar esse projeto e entregá-lo ao Ministério da Educação.
Folha - Essa avaliação que você propõe seria mais longa?
Cappelli - Claro! Como você avalia um estudante de medicina, que passou sete anos numa instituição, em uma prova teórica definida por um núcleo de iluminados de Brasília?
Folha - No último provão, a UNE adotou atitudes radicais, como invadir as salas de aula e rasgar provas. Você concorda com isso?
Capelli - A UNE nunca adotou a política de impedir os alunos de fazer prova. O que aconteceu este ano, principalmente no Rio, onde participei da manifestação para convencê-los a entregar a prova em branco, é que fomos recebidos por dezenas de seguranças. Eles tentaram nos impedir de entrar e nos agrediram. Não fomos lá para fazer confusão e por isso nos retiramos.
Folha - Que nota você daria para o ministro Paulo Renato Souza?
Cappelli - Dou zero. Ele quer acabar com a universidade pública e liberou a mensalidade escolar.
Folha - Qual sua avaliação da proposta do governo de reformar o segundo grau, com privilégio para o ensino profissionalizante?
Cappelli - Ainda não temos uma posição oficial. Na minha opinião, o segundo grau tem que dar uma formação mais ampla. Temos que formar o cidadão e não apenas um técnico. Deve-se manter a formação ampla e agregar mais conhecimentos.
Folha - Quais são as principais propostas da sua gestão na UNE?
Cappelli - O primeiro ponto é continuar o combate a essa política educacional que está aí. O governo está tentando retirar da Constituição a autonomia universitária. Com isso, quer retirar do Estado a responsabilidade com o sustento das universidades públicas. Isso, na prática, começa a privatização do ensino. Outro grande desafio é apresentar uma alternativa ao provão. Outro é combater a liberação das mensalidades escolares, resultado da política neoliberal do governo. Queremos reativar também a produção cultural nas universidades. Isso vai aproximar os estudantes e contribuir para a produção artística no País.
Folha - Como vai ser a postura política da UNE nos próximos dois anos?
Cappelli - A grande resolução do congresso foi de que a UNE vai lutar na construção de uma frente ampla, capaz de derrotar esse projeto que está em curso no País. É essa lógica neoliberal do governo Fernando Henrique que está levando o Estado a privatizar o ensino público.
Folha - Que avaliação você faz do 45º Congresso da UNE?
Cappelli - Foi um dos mais importantes da história. Se conseguiu um grau muito grande de unidade e houve consenso nas propostas apresentadas. A avaliação do quadro que o País vive foi consensual. A chapa que me elegeu representou o consenso de cinco teses diferentes. O grande saldo foi o grau de maturidade do movimento estudantil.
Folha - Você defende o ensino público, mas estuda em universidade particular. Não há um contra-senso nisso?
Cappelli - Ninguém estuda em universidade particular por opção, mas por falta de opção. Hoje, 75% das vagas no ensino superior estão nas instituições privadas. O ministro Paulo Renato lançou um plano decenal que prevê o aumento de 80% nas vagas no ensino superior, mas tudo via ensino privado . O governo privilegia o ensino privado e quer acabar com o ensino público.

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