Uma voz me dizia para matar minha filha
Curitiba - No dia 1º de julho de 2008, os paranaenses se horrorizaram diante da notícia de que na noite anterior a auxiliar de enfermagem Tatiane Damiani, então com 41 anos, tinha jogado a própria filha, Mariana, de oito meses, pela janela do 6º andar do edifício onde moravam, no centro de Curitiba. Um laudo médico revelou que a enfermeira tinha grave doença mental.
Considerada inimputável, Tatiane teve a pena transformada em medida de segurança. Diagnosticada como portadora de transtorno bipolar oscila entre comportamentos depressivos e de agitação , Tatiane, hoje com 44 anos, é uma entre os 673 internos do Complexo Médico-Penal (CMP).
Aqui estou bem, tenho acompanhamento psíquico, psicológico, do serviço social e jurídico. Faço artesanato, tricô, trabalho na faxina. Tem a hora do medicamento, do descanso, diz ela. Tranquila, só demostra certa emoção quando fala sobre o que fez à própria filha.
Na véspera do surto psicótico que a fez matar a menina, ela afirma ter tentado se matar, tomando medicamentos. Acabei vomitando tudo. No dia seguinte acordei desorientada, não sabia que horas eram, nada. Preparei a Mariana e levei-a para a creche.
Às 3 da tarde peguei minha filha na creche mas senti ela pesada, diferente. Troquei a fralda, dei de mamar e lá por 6 da tarde fui dormir. Quando acordei às 21 horas, comecei a ouvir vozes. Eu ainda li o salmo 91, mas foi pior. Vi um dragãosinho do lado da cama. Vinha a voz me depreciando, dizendo para eu matar minha filha, conta. Para não sujar a mão, Tatiane afirma ter decidido jogar a criança pela janela. Estava escuro e eu joguei, conta, com a voz embargada. Ela, então, sentou na janela e pensou em se matar, mas não teve coragem. Acabou presa pela Polícia.
Tatiane conta que fazia tratamento há cerca de 14 anos e tomava antidepressivos. Nesse tempo, foi internada para tratamento psiquiátrico pelo menos duas vezes. O último surto tinha acontecido no oitavo mês de gravidez. Mas eu nunca tinha feito nada para ninguém, afirma. Ela, no entanto, tentou se matar diversas vezes, com gás, cloreto de potássio, com rivotril, recorda.
Em casa e no trabalho, todos a consideravam uma pessoa normal. Formou-se em Enfermagem em 2000 e trabalhava desde 1993 como auxiliar de enfermagem. Morava em Curitiba desde 1987, vinda de Colorado, no Rio Grande do Sul, onde morava a família. Depois de três anos internada, ela será avaliada pela Comissão Técnica de Classificação (CTC), que irá definir se tem ou não condições de retornar ao convívio da sociedade.
Os planos de Tatiane são retornar para a casa da mãe em Colorado, onde pretende abrir um pequeno negócio. Acho que tenho condições. (M.G.)





