Cambé - O pioneiro Ronald Tkotz, que se considera muito mais brasileiro que alemão, completa hoje 90 anos de idade e desde os 14 anos vive no Brasil, mais especificamente em Cambé (Norte). Todo esse tempo morando em Cambé revela a paixão do pioneiro pela terra do Paraná. Casado com Vera Tkotz, Ronald é pai de três filhos, avô de sete netos e bisavô de cinco. Todos nasceram, cresceram e continuam vivendo em Cambé.
''Nunca tive vontade de sair daqui. Cheguei a fazer muitas viagens para São Paulo a trabalho mas nunca quis morar em outro lugar. Hoje está tudo muito diferente, existe mais violência, mas gosto muito daqui. Sinceramente, me sinto muito mais brasileiro do que alemão'', revela.
O aniversário será comemorado com a família, numa pequena confraternização. Tkotz se emociona ao falar à reportagem da FOLHA sobre a vida na Alemanha e como Cambé era quando chegou. Ele conta que sua família vivia na cidade de Danzig, que na época pertencia à Alemanha comunista e em 1939 foi anexada à Polônia, passando a se chamar Gdansk. O pai dele, Pedro Tkotz, que serviu durante a 1 Guerra Mundial (1914-1918), saiu da Alemanha em busca de uma vida melhor. ''Meu pai chegou a levar estilhaços de granada na cabeça. Ele queria ter mais tranquilidade e não morar num lugar onde as coisas poderiam piorar ainda mais com a guerra'', comentou.
No final da década de 1930, a família viu um anúncio de uma Companhia Inglesa que oferecia terras no Brasil e a idéia de embarcar para a América do Sul surgiu no mesmo momento. Tkotz lembra que, depois de passar meses numa viagem cansativa de navio, a chegada no Norte do Paraná causou ''estranheza'', principalmente pelo fato de todos estarem acostumados com a modernidade da terra alemã. ''Danzig já tinha mais de mil anos de existência, era uma cidade de primeiro mundo. Lá a gente tinha telefone com discagem DDD, bonde com portas elétricas e outras coisas que facilitavam a vida da gente. Quando chegamos aqui foi um susto. Só havia mata, muitas árvores, tudo fechado. Foi até engraçado'', disse, rindo.
Enquanto ajudava o pai na oficina mecânica onde se consertava de ''tudo um pouco'', Tkotz pensou em abrir algo que pudesse ser útil para os poucos moradores da região. ''Os carros aqui vivem quebrando por causa das estradas, acho que vou fabricar molas para consertar essas camionetas'', pensei.
E a idéia do jovem deu certo. Hoje, mais de 30 anos depois, a empresa de molas Aesa de Cambé, com mais de 200 funcionários, está sob o comando da terceira geração da família. ''Sempre tivemos muitos amigos. Era uma época muito boa, as pessoas se relacionavam mais. Tudo isso fez parte de nossa história. A cidade de Cambé cresceu rápido, mas os carros iam quebrando porque as estradas eram muito ruins. A fábrica ajudou nisso'', comenta.
O pioneiro presenciou todas as transformações da cidade, que só se tornou município em 1943. A primeira escola da cidade foi construída pelo pai e teve como primeira professora a irmã do pioneiro, Alice Tkotz. Os primeiros veículos que circularam pelas ''ruas'' de Cambé - como um Ford 1929 e motocicletas trazidas de Danzig - chegaram à cidade graças à família Tkotz.

mockup