Mesmo com uma dorzinha nas costas por causa de um tombo, seu Tomé Gonçalves, 75 anos, recebeu a reportagem da FOLHA em sua casa, em Cambé, para contar porque, depois de 50 anos trabalhando como representante de vendas no Paraná, ainda tem pique para viajar pelo Estado em busca de novos clientes para os acessórios automobilísticos que vende.
Nascido em Franca, interior de São Paulo, em outubro de 1934, seu Tomé viveu até os oito anos no campo. O pai era administrador de fazendas e resolveu mandar o filho estudar na cidade ainda pequeno. ''Morava numa pensão porque na roça não tinha escola. Fiz só até o quarto ano, que dava o diploma para o ginásio, mas depois parei de estudar'', relembrou.
Enquanto esteve na cidade, ele trabalhou num jornal e numa revista, mas voltou para a fazenda logo depois de abandonar a escola. Lá trabalhou com tratores e máquinas agrícolas até os 18 anos.
''Meu cunhado já morava em Cambé e me convidou para trabalhar com ele num armazém de secos e molhados'', contou o vendedor. Ao chegar por aqui, em 1953, ele teve de trabalhar como servente de pedreiro até o estabelecimento ficar pronto.
Com o cunhado ele trabalhou até 1957, quando o armazém fechou. Sem emprego, seu Tomé resolveu aceitar a proposta de um amigo e iniciou a carreira de representante de vendas de uma fábrica de molas e chassis em Cambé, para a qual trabalha até hoje.
Os três primeiros anos foram os mais difíceis, segundo ele. ''Não conhecia o produto, nem os clientes e passava até 20 dias fora de casa, viajando. No começo, viajava de ônibus, até que em 1958 o patrão comprou um jipe e eu comecei a emprestá-lo para as viagens. Só em 1962 fui comprar meu próprio jipe'', relembrou.
Quando chovia, era impossível percorrer as estradas de carro. Então seu Tomé seguia de automóvel até Apucarana e de lá pegava um trem que parava de cidade em cidade com destino a Maringá. ''Aos poucos a rota foi aumentando e comecei a viajar mais longe, para Paranavaí, Campo Mourão até percorrer o Paraná todo'', disse o vendedor, que abriu linhas no Mato Grosso e também no Paraguai e na Bolívia, em meados de 1970.
Quando resolveu se aventurar pelas estradas paranaenses, seu Tomé já estava casado com dona Cleide - a quem conheceu nas idas ao cinema quando jovem - e já tinha os filhos Maria José e Edilson Luiz. ''Agradeço muito por ela ter cuidado das crianças. Emprego naquela época era difícil e como precisávamos do dinheiro, tive que me sujeitar a passar a vida na estrada'', declarou o representante, ressaltando que a esposa ''não gostava muito das viagens, mas aceitava''.
Por dez anos a família morou na casa que era dos pais de Cleide, na Rua Estados Unidos, em Cambé. Quando a situação melhorou, seu Tomé comprou a casa onde vive até hoje, em frente à residência dos sogros, na mesma rua. ''Minha sogra vendeu a casa, dividiu o dinheiro entre os filhos e veio morar com a gente de novo.'' Hoje, a filha dele também mora na rua onde passou toda a infância. ''Já meu filho foi embora para os Estados Unidos.''
Sem vê-lo a quatro anos, seu Tomé ainda não conhece o neto ''americano'', como ele definiu. ''A minha nora não engravidava aqui no Brasil, mas depois que foi para lá já teve o João Pedro e está esperando mais um'', comemorou o vendedor, que tem outros dois netos, Marina e Eduardo, que moram pertinho dele, em Cambé.
Dona Cleide não estava em casa no dia da reportagem. ''Minha esposa está na praia com as amigas. Ela até me chamou para ir junto, mas ela se diverte mais com as amigas. Eu viajo tanto que prefiro descansar em casa'', declarou.
Da estrada, com a maleta que guardava o catálogo de produtos e o talão de pedidos, seu Tomé só guarda as alegrias. Ele costumava dormir em hotéis e pensões do interior para, logo cedo, visitar a clientela que lhe é fiel até hoje. ''Já vi empresa passando de pai para filho e de filho para neto'', confessou.
Aposentado, seu Tomé continua sendo o representante que mais vende na empresa. ''Só procuro cuidar do meu trabalho'', comenta, com modéstia. Apesar de quase ter morrido durante uma operação na vesícula - ele ficou 28 dias desenganado pelos médicos - o vendedor não quer saber de descanso. ''Enquanto tiver saúde, vou trabalhar.''
As viagens continuam, agora mais esparsas - ele visita pelo menos 150 clientes por mês -, e em breve ele deverá fechar novos negócios em Assunção, no Paraguai. ''Ganhei a confiança dos patrões e dos clientes. Mesmo sozinho, sempre gostei de viajar. Só tenho história boa para contar da estrada'', assinalou.
A dica para quem está começando é simples. ''Basta fazer amizade com o cliente. Ele precisa confiar em você e você nele'', ensinou o vendedor que, nas horas vagas, adora uma pescaria.

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