Uma vida dedicada a cuidar do próximo
''Eu me chamo Lydia, com ípsilon; Thereza, com tê e agá; Reckzi... - Dona Lydia não esperou nem a entrevista começar e logo soltou a primeira gargalhada. Bom humor certamente é a característica mais marcante da enfermeira. Descendente de austríacos, Lydia Thereza Reckziegel tem os olhos azuis, os cabelos loiros e curtos e um sorriso permanente no rosto.
Ela nasceu em Estrela, no Rio Grande do Sul, em 1937. A família mudou-se para Palotina, interior do Paraná, quando Lydia tinha 18 anos e o caçula dos 10 irmãos, apenas 40 dias de vida. Os pais sempre trabalharam na lavoura.
No Oeste paranaense, em busca de uma vida melhor, a agricultura de subsistência deu lugar à plantação de café, que teve a primeira florada atingida pela geada negra, em 1975. Depois disso, a família começou a plantar trigo. ''Me criei na lavoura'', diz. Foi em Palotina que ela teve contato com as irmãs do Colégio Mãe de Deus, com quem se mudou para Londrina, aos 23 anos.
Após dois anos de estudos no Centro de Educação Profissional Mater Ter Admirabilis, formou-se técnica em enfermagem. ''Desde criança queria cuidar de doentes'', justifica ao recordar as noites em que acordava para esquentar água e colocar vapor no rosto da mãe, que tinha crises de asma.
Londrinense de coração, Lydia se encantou com a capela do Colégio Mãe de Deus logo que chegou. Esse ainda é um dos seus lugares preferidos na cidade, além da Catedral. ''Me sinto londrinense. Minha vida pós-agricultura é aqui'', admite. Lydia nunca se casou nem teve filhos e deixa claro que foi por opção, antes de soltar mais uma gargalhada. ''Na minha época, a moça tinha que ser solteira para trabalhar com enfermagem. Pra mim, isso aí foi ótimo! Nunca quis me casar, essa ideia não estava na minha cabeça.''
O trabalho sempre esteve em primeiro lugar em sua vida. Com mais de 40 anos de profissão, Lydia trabalhou no Hospital Modelo, e no Instituto de Medicina de Londrina, que já não existem mais. Também trabalhou por 28 anos no Hospital Infantil Sagrada Família.
Foi nessa época que concluiu o ginásio e o colegial na Escola Mário de Andrade e se formou enfermeira com a primeira turma do Centro Universitário de Londrina, o antigo Cesulon. É desse período que ela guarda as melhores recordações, pois foram muitos os casos de crianças que estavam desenganadas e se recuperaram no hospital. Naquela época, os pais não acompanhavam os filhos que estavam internados e alguns deles, mesmo depois de curados, se apegavam tanto que não queriam ir embora. ''Tinha muita criança que agarrava em mim. Sinceramente, tem algumas delas que eu gostaria de ver hoje!''
Atualmente, ela trabalha com coleta de sangue em um laboratório da cidade e não tem nenhuma pretensão de se aposentar. ''Vim de uma família pobre. Tive que trabalhar para ajudar meu pai e não acho que isso me prejudicou. Às vezes eu falo: 'Meu pai não me ensinou a ficar à toa! Isso não é comigo!'''.
E nem mesmo problemas de saúde a fazem ter uma vida menos agitada. Após fazer uma cirurgia para colocar uma prótese no joelho esquerdo no início do ano, Lydia diverte-se ao contar que sua primeira pergunta para o médico não foi quando voltaria a andar, mas quando voltaria a trabalhar. O riso é o mesmo de quando ela revela o que mais gosta de fazer, depois de trabalhar, é claro! ''Ai, adoro andar na chuva! Um dia, quando eu comecei a morar aqui, estava chovendo e eu fiz de conta que não tinha sombrinha só para me molhar'', conta e ri.
Uma dezena de imagens de anjinhos decora a sala em que Lydia atende aos pacientes. Há vários outros na estante de sua casa. Todos são presentes de ''fãs'' que ela conquistou ao longo dos anos. As mãos delicadas, uma ''agulhinha de bebê'' e a conversa e carinho que acalmam os mais medrosos fazem com que a coleta de sangue seja indolor, garantem alguns pacientes. ''Amo, amo mesmo o que faço. Não me arrependo nem um pouquinho de ter escolhido ser enfermeira. Agradeço a Deus por ter me dado essa profissão'', se emociona. (Carol Manhani/Especial para a FOLHA)





