Um padre brasileiro, com ascendência alemã, que traduz livros do inglês e reza missas em japonês. A mistura de culturas talvez seja uma das marcas do padre Lino Stahl, que no dia 1º de abril completará 90 anos de idade. Cidadão Honorário de Londrina desde 2006, Stahl foi o primeiro pároco da Paróquia Pessoal Nipo-Brasileira de Londrina, oficializada em agosto de 1989. A ligação com a comunidade nipo-brasileira, no entanto, existe desde 1956. Stahl também fundou o Centro de Educação Infantil (CEI) Irmãs de Betânia, no Jardim Nossa Senhora da Paz, na zona oeste, que atualmente atende 80 crianças.
Stahl nasceu em 1923, em Nova Petrópolis (RS), mas considera sua cidade de origem o município de Itapiranga (SC), para onde se mudou aos 4 anos. Sétimo entre 10 filhos do casal Ema e Francisco Stahl, o religioso descobriu sua vocação ainda na infância, quando tinha 12 anos e foi estudar em Salvador do Sul (RS). "Um professor perguntou quem queria ser padre e eu levantei o braço", revelou. Ele concluiu o colegial e aos 18 anos entrou na Companhia de Jesus e se tornou jesuíta. Seu objetivo inicial era trabalhar com os índios da Amazônia, mas o destino o conduziu para outra direção.
Em 1949, quando ainda não havia sido ordenado padre, ele foi convocado por seu superior a ajudar a disseminar o catolicismo entre os japoneses. "Ele achou que seria uma oportunidade de mostrar a beleza do cristianismo", destacou Stahl, lembrando que a Segunda Guerra Mundial havia terminado havia quatro anos.
Stahl chegou ao Japão 400 anos depois de Francisco Xavier ter aportado no Japão, também como jesuíta da Companhia de Jesus, com a missão de evangelizar os japoneses. "O país que encontrei tinha muita pobreza, sujeira nas ruas e destruição", relatou ele, que inicialmente atuou como estagiário em um colégio católico na cidade de Yokosuka.
Dos alunos daquela época, Stahl relatou que um se tornou bispo auxiliar de Tóquio e outro foi primeiro-ministro do Japão. O padre recordou que entre os alunos japoneses, muitos eram budistas e xintoístas. "Com o discurso do imperador japonês no final da guerra admitindo que não era uma divindade, o xintoísmo tinha perdido muita influência e o budismo era uma religião mais pessoal e não era tão ativa na busca por fiéis", observou.
Essa experiência no Japão durou quatro anos. Depois, o religioso esteve na Alemanha, onde estudou Teologia e foi ordenado padre. "Senti um impacto muito grande da rigidez alemã. Aqui no Brasil a gente tinha mais liberdade", comparou. Posteriormente foi a Seattle, nos Estados Unidos, onde permaneceu um ano como padre e de lá retornou a Kobe, no Japão. "Fui lecionar no colégio dos jesuítas", relembrou.
Dos japoneses ele guarda a lembrança de um povo honesto e pontual. "No entanto, trabalhar no Japão não foi fácil. Os problemas lá são diferentes dos que a gente encontra no Brasil. Eu senti dificuldades em aprender a cultura", exemplificou.
Após 15 anos, Stahl regressou ao Brasil. Depois retornou ao Japão outras vezes e, quando esteve em Tóquio, recebeu do cônsul-geral do Brasil em Tóquio o pedido para que orientasse e auxiliasse os imigrantes japoneses no Sul do Brasil. Passou por Porto Alegre e em 1982 veio a Londrina temporariamente para atender a comunidade japonesa. O temporário acabou se tornando efetivo e já está há 31 anos no Norte do Paraná. Ganhou o título de cidadão honorário de Londrina em 2006, quando completou 50 anos de seu ordenamento como padre.
Padre Lino continua ativo, rezando missas diariamente, participando de eventos e cuidando do centro infantil. Embora a fama do Nossa Senhora da Paz seja de um bairro violento, ele ressalta que os moradores são sérios e trabalhadores. Na sua opinião, as pessoas que se envolveram com a criminalidade são as que não tiveram preparo para enfrentar a vida. "Alguns deles, por não terem a educação necessária, acabam se tornando laranjas de pessoas mais graúdas. Pessoalmente eu sempre me senti bem com a população de lá, nunca tive problemas", relatou o padre, que é formado em Filosofia.

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