Uma vida cercada de cuidados
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terça-feira, 03 de agosto de 2010
Diogo Cavazotti,BR> Equipe da Folha 
Curitiba - Pessoas de diferentes raças podem nascer albinas. Isso ocorre quando há uma herança genética rara e o indíviduo não tem pigmentação na pele e nos olhos. O problema é a falta de melanina e a consequência é a aparência bem clara, incluindo cabelos brancos desde o nascimento. Essa condição exige cuidados especiais. O uso de protetor solar é fundamental, já que a incidência de câncer de pele é muito maior nos albinos. Porém, o preço é um complicador.
O preço do filtro solar com fator de proteção 30 varia de R$ 28,80 a R$ 139,00. Em média, um albino deve passar o protetor a cada duas horas. Isso faz com que ele gaste aproximadamente quatro tubos por mês. Nem todos conseguem desembolsar em torno de R$ 150,00 mensais apenas para a compra do produto, além dos gastos com óculos de grau e de sol.
O professor universitário de literatura e inglês Roberto Biscaro, 43 anos, que atualmente vive no interior de São Paulo, é militante pelos direitos dos albinos e criou um blog (www.albinoincoerente.com). ''O fato de ser albino afetou durante muitos anos minha autoestima. Hoje isso não ocorre. As pessoas continuam me olhando, mas temos que ter maior visibilidade''.
São, no mínimo, quatro tubos de protetor solar por mês. O gasto mensal varia entre R$ 100,00 e R$ 150,00. ''Muitas pessoas não conseguem pagar e não usam. Um albino exposto ao sol pode sofrer queimaduras de terceiro grau. Não é difícil encontrar pessoas que tiveram câncer de pele antes dos 30 anos'', relata. Por não haver políticas preventivas do Ministério da Saúde nem dos governos locais, a estrutura pública acaba gastando muito mais para tratar dos doentes.
Apelidos
Cristiano Rocha de Lima, 33 anos, também albino, tem problemas de saúde, não pode trabalhar e recebe R$ 510,00 por mês do governo. Com este valor sustenta a mulher e mais três filhos. Apenas com protetor solar gasta R$ 90,00 mensais. Se fica muito tempo exposto ao sol, o lábio começa a sangrar. Ele tem problemas de visão que não são amenizados com óculos ou cirurgia. Quando o dinheiro e o protetor solar acabam, o jeito é não sair de casa e evitar o sol ao máximo.
Mas o que mais incomoda Lima são os apelidos que recebe. ''Todo dia alguém me chama de carneiro, cabeça de couve-flor e até de Ana Maria Braga.'' O maior medo era que algum filho nascesse albino, mas nenhum dos três teve a alteração genética. O bisavô de Lima também era albino.
A aposentada Maria dos Santos Vieira, 58 anos, vive com R$ 510,00 por mês e também sustenta o marido. Para economizar, passa bem pouco protetor. Assim, consegue gastar apenas dois tubos mensais, que custam R$ 29,00 cada. Além disso, ainda precisa comprar um hidratante para a pele, no valor de R$ 45,00 e mais um remédio para fibromialgia, que custa R$ 60,00.
''Tem muita gente que tira sarro de mim.'' Maria tem três irmãos. Um deles é albino. ''Meus pais são negros. Quando eu nasci, meu pai achou que eu não era filha dele''. Caso recebesse o protetor gratuitamente, poderia usar o dinheiro para outras necessidade, como adquirir o medicamento para fibromialgia.


