Uma vida atrás do balcão
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sábado, 11 de fevereiro de 2012
Michelle Aligleri <br> Reportagem Local 
Na tarde de ontem, quem passava pelo caminho que leva à Mata dos Godoy, na Zona Sul de Londrina, se deparava com uma antiga venda sendo desmontada. As paredes de um azul desbotado denunciam que o Empório Calegari é antigo. O balcão de tampo desgastado que até pouco tempo serviu café e pinga aos que por ali passaram estão agora vazios. As telhas, retiradas uma a uma pelo antigo morador do local, desmancham aos poucos uma história de 47 anos.
Dirceu Calegari, 56 anos, mudou-se para aquela casa, na região do Aviação Velha, com os pais e irmãos quando tinha nove anos de idade. A família, que antes morava na localidade de Água do Couro do Boi, em Sertanópolis (Norte), transformou a parte da frente da residência em uma venda de ''secos e molhados''. Ele lembra que o local, que ultimamente era um bar, já comercializou uma variedade grande de artigos. ''Nestas prateleiras ficavam os queijos e a marmelada'', mostrou acrescentando que pó de arroz e brilhantina também já fizeram parte do estoque.
Apesar de tanto tempo no local, o espaço era alugado e, no final do ano passado, o proprietário pediu que o comerciante e sua família desocupassem o terreno. Dirceu não esconde que este é um momento difícil. ''Eu não sei o que vai ser daqui pra frente, isso aqui é o que eu sei fazer da vida'', disse. Apesar da insegurança, ele se apega aos ensinamentos do falecido pai. ''Aprendi que o homem pode ter inúmeros defeitos, mas precisa ter duas qualidades: ser honesto e trabalhador''.
O empório abria todos os dias pontualmente às 6h30 e funcionava enquanto houvesse movimento. Dirceu diz que o trabalho era cansativo. ''A gente trabalhava até nos domingos e só guardava os dias santos''. Religioso, o comerciante afirma que não havia tempo nem mesmo para frequentar a missa. ''É uma vida atrás do balcão, uma vida difícil, mas é a profissão que eu aprendi''.
As prateleiras estavam sempre cheias, Dirceu não gostava de ver buracos entre as mercadorias. ''Aprendi com meu pai que se a gente vendia duas garrafas tinha que repor pelo menos uma'', declarou. O quadro com os preços dos produtos será levado como lembrança. Para ele, o que ficou de mais importante nestes anos de trabalho foram os amigos. ''Vários vinham para conversar. Aprendi muitas piadas nestes anos todos'', lembrou. ''Muita gente parava aqui pra pedir informação. Se eu ganhasse cinquenta centavos por informação dada já tinha comprado dois carros populares'', acrescentou, rindo.
O chão, as paredes, a jabuticabeira na janela, todos os espaços do antigo empório parecem ter histórias para contar. Dirceu, que tem apego emocional ao lugar onde cresceu, segura a emoção e perde as palavras quando pensa no futuro. ''Quando eu passar aqui na frente vou fechar os olhos e abaixar a cabeça. Não quero saber no que este lugar vai se transformar'', disse, sem esconder a dor.
Por conta da mudança, Dirceu comprou uma casa próxima em sociedade com o irmão. ''Vou procurar um novo trabalho. Passa tanta coisa na cabeça da gente. Às vezes penso que vou ter tempo para pescar e para a minha família, mas não é uma situação fácil de se viver''.


