‘‘Tem certos dias em que eu penso em minha gente. E sinto assim todo o meu peito se apertar.’’ O sentimento exposto por Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Garoto, na música ‘‘Gente Humilde’’, também oprime o peito de quem anda pela primeira vez no ônibus que faz a linha 314 – Olímpico, zona oeste de Londrina. Uma das linhas mais visadas por assaltantes, o 314 sai do Terminal Urbano de Transporte Coletivo, na área central, passa por vários bairros e chega à periferia da cidade. A Folha percorreu ontem o trajeto de ida e volta, feito em uma hora e meia, e registrou a tensão do motorista, cobrador e passageiros, que viajam de semblante carregado, pelo medo de um assalto iminente.
Recordista em assaltos, a linha 314, onde a Transporte Coletivos Grande Londrina (TCGL) opera, registrou 47 roubos o ano passado, contra 21 contabilizados no ano de 2000. Durante a semana, a empresa disponibiliza sete carros, que saem 43 vezes do Terminal e passam pelos Jardim Sabará, Bandeirantes, Avelino Vieira, Olímpico, João Turquino, Parque Universitário e Maracanã. No sábado, quatro carros circulam na linha 36 vezes. No domingo, dois ônibus dão 26 voltas completas pela região.
Mãos firmes no volante, o motorista da TCGL Valdecir Ribeiro, 33 anos, leva a responsabilidade de conduzir o veículo e manter a calma em caso de uma abordagem. Na empresa há seis anos, ele se lembra com detalhes do último assalto. Segundo Ribeiro, às 15h18, quando o coletivo circulava em um trecho do bairro João Turquino, região oeste, entraram dois adolescentes. ‘‘Tinham idade entre 15 e 18 anos’’, conta. Um deles, continua, ficou na porta, enquanto o outro sacou um revólver e deu voz de assalto. A ação, afirma Ribeiro, gerou um estado geral de nervosismo, que o assaltante demonstrou mais do que todos nas mãos trêmulas. ‘‘Esse é o maior perigo. E se ele se desespera e atira?’’
Ribeiro relata que os assaltantes acharam que o dinheiro era pouco e exigiram mais. ‘‘Levaram o relógio do cobrador.’’ Consumado o roubo, desembarcaram e seguiram calmamente pelas ruas do bairro. Avisar a empresa, dirigir-se à delegacia próxima para registrar queixa e retornar ao trabalho tornaram-se parte da rotina de cobradores e motoristas. O susto não tirou Ribeiro da linha 314. Na jornada de seis horas de trabalho, ele conduz o ônibus pelo trajeto quatro vezes. A insistência, ou mesmo a coragem de continuar na linha, servindo os moradores da região, o motorista explica: ‘‘É uma gente educada.’’




Ocorrências
em 2002
TCGL
1º de janeiro – 8 assaltos
2 de janeiro – 8 assaltos
3 de janeiro (até às 18 horas) – 1 assalto
TIL
1º de janeiro – 4 assaltos
Francovig não registrou assaltos.

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