Quem vê aquele mulato de meia-idade na direção dos ônibus das linhas 601 e 602, da Viação Francovig, não imagina o quanto o motorista Geraldo Conceição Pires é viajado. Ele conhece a Bolívia, o Peru e quase uma dezena de países da Europa, onde visitou mais de 200 cidades – sempre na companhia do padre e professor Carlos Weiss, de quem era motorista e também uma espécie de faz-tudo.
  Num misto de trabalho e passeio, Geraldo viajou durante 15 dias pelos dois países da América do Sul, onde conheceu suas principais cidades e o famoso lago Titicaca. Pela Europa ele rodou durante seis meses levando pra lá e pra cá o padre que fundou e deu nome ao Museu Histórico de Londrina.
  Geraldo conta que trabalhou com padre Carlos Weiss
de 1965 a 1975. Começou como cozinheiro, aos 16 anos, e, três anos depois, tornou-se motorista. ‘‘Quando atingi
a maioridade falei que meu
sonho era ser motorista e
ele providenciou tudo para
que eu tirasse a carteira de habilitação’’, lembra.
  Eles voaram para a Europa no final de junho de 1975, com destino a Frankfurt, na Alemanha. Geraldo, então com 26 anos, revela que ‘‘morria de medo de avião, não preguei o olho nem na ida nem na volta em 16 horas de vôo’’. Já em Colônia morava um irmão do padre, que comprou o carro que Geraldo dirigiu durante toda a viagem.
  Observando que na Alemanha ‘‘até motorista anda de terno’’, ele diz que admirou a elegância do povo alemão, sem falar da arquitetura que o deixou fascinado. Uma ópera, que assistiu num grande teatro ‘‘de estilo gótico’’, em Colônia, embora não tenha entendido quase nada, também ficou gravada na memória como algo ‘‘importante para a minha vida.’’
  Da Alemanha, ele ainda gostou ‘‘da cultura e da educação’’ dos habitantes de Bonn e não se esquece da Catedral de Colônia, com seu ‘‘estilo gótico e as torres de mais de 150 metros de altura.’’ Na Itália, mesmo conhecendo todas as grandes cidades, encantou-se com a arquitetura de Alberobello, província de Bari, com as suas ‘‘casas brancas, de pedras, todas iguais, com os telhados redondos, nunca vi nada igual.’’
  A grandeza do Coliseu, em Roma, e a abundância de ouro e pedras preciosas no Museu do Vaticano, também impressionaram Geraldo, que ainda visitou Castel Gandolfo, residência de verão do Papa. Também esteve em Módena, na casa de um amigo do padre, onde por pouco não trombaram com alguns londrinenses, entre eles o então prefeito José Richa, que haviam acabado de sair de lá. Esse amigo foi dono do antigo Restaurante Lodi, em Londrina.
  Da França, Holanda, Bélgica e da então comunista Iugoslávia, ‘‘terra do marechal Tito’’, ele só lembra que passou por lá. Em Berna, na Suíça, foram os relógios, ‘‘de todos os tipos e tamanhos’’, o que mais lhe chamou a atenção numa praça que ‘‘parecia um camelódromo.’’
  Em Viena, na Áustria, se encantou com a beleza do Rio Danúbio – ‘‘na hora me lembrei da música Danúbio Azul’’ – e ficou maravilhado com as ruínas da Acrópole em Atenas, na Grécia, para onde foi de navio, saindo da Itália. Geraldo conta que, durante toda a viagem, eles ficavam hospedados em conventos, dormindo e comendo de graça.
  Da viagem, ele ainda se lembra que, depois de quatro meses, ‘‘já não agüentava mais de saudade, mas vir embora que jeito?’’ Também tinha muito medo ‘‘de estourar uma guerra e eu não poder sair mais de lá, era o tempo da guerra fria e eu morria de medo quando via aqueles ‘aviãozões’ americanos que passavam toda hora.’’
  Em relação às mulheres, ‘‘uma loira até tropicou de tanto olhar pra trás, mas, fazer o quê, além de eu não falar a língua, o padre não desgrudava.’’ Em janeiro de 1976 eles vieram embora. Em março, Geraldo recebeu uma proposta e foi trabalhar em São Paulo. Dois meses mais tarde, em junho, quando Geraldo já estava de volta a Londrina, o padre Carlos Weiss, que era diabético, morreu.
  Lembrando da viagem, que ele considera uma espécie de prêmio que o ex-patrão lhe deu pelos 10 anos de serviços prestados, Geraldo não duvida: ‘‘Foi de despedida, acho que ele já estava desconfiado que ia morrer logo.’’ Não foi perguntado ao motorista se ele é feliz na profissão. Também, pra que perguntar o óbvio? Era seu sonho de menino – sonho que um, quase sempre, carrancudo e mal-humorado padre alemão ajudou a concretizar.

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