Uma subida cheia de obstáculos
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de janeiro de 2002
Walter OgamaReportagem Local 
Um carrinho de feira cheio de quilos de batatinha, cenoura, tomate, vagem e beterraba tem uma ladeira à frente. Fazem parte da carga do pequeno veículo de tração humana dúzias de banana e laranja, além de folhas, que dispostas sobre o resto da mercadoria, parece que enfeitam.
A tração é uma senhora. Tem lá perto de 60 anos, é miúda, nem gorda e nem magra. Demonstra muita disposição nos seus passinhos curtos mas apressados. Ela sobe, ladeira íngreme, às 11 horas da manhã de um domingo de sol fervente. Transpira e briga com imperfeições da calçada. Estrategista, desvia dos buracos e sobe, ziguezagueando.
Batalhadora e persistente, sobe vencendo o cansaço. Mas nem por isso em alguns momentos ela não chega a imaginar que a Rua Alagoas, bem no centro de Londrina, é o caminho que leva a uma montanha. E sobe a pequena senhora, contando os passos, para se distrair e, de repente, imaginar que já subiu mais do que o pequeno trecho que percorreu. E quando se dá conta que nem ao meio do quarteirão chegou, retoma o ânimo e prossegue, sempre subindo e desviando dos buracos.
Logo adiante, onde a vista alcança, um carro ocupa a calçada. Atravessado, o veículo é um obstáculo de lata, ferro, borracha, vidro e plástico. Enorme, se comparado ao pequeno carrinho de feira da miúda senhora. Enorme também é o motorista, que sem demonstrar peso na consciência nem se incomoda com a mulher e o seu carrinho, que sobem. Gordo, de bermuda domingueira e óculos de sol que escondem os olhos, parece querer impor medo, enquanto em alto volume escuta música sertaneja.
Na preferencial, a mulher encara, meio que sorrindo. Procura uma imperfeição do meio fio e desce, ela com o seu carrinho, para a rua. Faz a volta, retoma a calçada, e continua a subida, pensando: Aqui não tem pardal para fotografar e multar motorista como esse. Também não tem agente de trânsito, porque hoje é domingo. Eu desvio e subo. Isso não me incomoda, até exercita.
E o motorista, infrator sem pena, continua impassível, sabendo que ninguém o incomodará por estar errando com a sociedade. E ainda se dá ao direito de tamborilar com os dedos no teto do seu automóvel.


