Crianças e jovens deste início de século, de todas as classes sociais, estão perdendo algo precioso, que loja ou shopping nenhum é capaz de colocar à venda: a auto-estima. Paradoxalmente, o fenômeno é uma das conseqüências da excessiva valorização de bens materiais que acomete o País.
  O tema foi abordado na semana que passou pelo psicólogo e psicoterapeuta Ivan Capelatto, em palestras a pais de alunos dos colégios Universitário e Marista. Capelatto abordou o tema ‘‘A construção da auto-estima como base para a saúde mental’’, e fez um raio-x cruel da atualidade: as doenças sociais crescem na mesma proporção do consumismo e, como resultado, estamos vivendo a morte do futuro.
  De acordo com o psicoterapeuta, que em 2001 publicou o livro ‘‘Diálogos Sobre Afetividade – Nosso Lugar de Cuidar’’, uma coletânea de entrevistas concedidas à jornalista Patrícia Zanin, da Rádio Universidade, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), todas as classes estão sendo atingidas pelo fenômeno, que prega a obtenção de uma identidade pelo que se tem e não pelo que se é. ‘‘Hoje consumimos objetos, marcas de roupa, estética. Nunca se viu tanta preocupação com o corpo. A sociedade se desconfigurou como protetora, cuidadora, e passou a exigir.’’
  Segundo Capelatto, temos hoje uma doença social, que alguns autores chamam de A Era da Indiferença ou Era do Gozo, que caracteriza-se pela substituição da afetividade e da política dos cuidados por uma política narcísica. O lema é: você tem que estar com prazer, e não importa o custo disso. ‘‘O resultado é a morte de tantos jovens que aderem aos anabolizantes de animais para ficar com o corpo bonito; de meninas vítimas de anorexia e bulimia. Muitos adquirem problemas sérios, inclusive cerebrais.’’
  O psicoterapeuta vai mais longe, e lembra que muitos assaltos estão sendo praticados por jovens que têm casa, comida, família, mas que querem a todo custo comprar roupas e sapatos da moda. ‘‘Percebemos, com isso, que o consumismo está intimamente ligado à violência, não à miséria. O consumismo tem a ver com a idéia de que se é aquilo que se veste, aquilo que se pesa, aquilo que se tatuou no corpo.’’
  Para Capelatto, existe uma política social que estimula esse comportamento e envolve o tráfico de drogas, a venda de filosofias narcísicas – como tatuagens e piercings, muito incentivados pela mídia. Na cabeça dos adolescentes, segundo o psicólogo, começa então a acontecer uma troca: o que é ético passa a não valer. ‘‘Aquele menino que é bom com os amigos, com a namorada, passa a ser tolo. O estudioso é chamado de CDF, ‘nerd’, babaca. Todo este fenômeno gera um narcisismo exarcebado, e a auto-estima começa a cair. Passa a valer a seguinte idéia: eu não sou mais eu, mas aquilo que eu posso mostrar para os outros.’’
  Outra conseqüência desastrosa disso tudo é a banalização da morte. O psicoterapeuta lembra que hoje em dia ninguém mais quer falar em perda, não há mais tolerância para a dor. Ele afirma que este é um sinal de que a sociedade adoeceu, e junto está adoecendo o conceito de família, de religião, de escola. ‘‘As escolas passam a ser narcísicas, preocupando-se mais com vestibular do que em cuidar dos alunos. A família, por sua vez, só se preocupa em dar o status que o filho ‘precisa’ ter, e para isso os pais passam a trabalhar cada vez mais, parando de cuidar dos filhos. As instituições sociais também não cuidam. Temos a doença: a dificuldade de conseguir auto-estima – que é gostar de si mesmo como se é, sem ter como referência o outro.’’
  A falta de auto-estima se manifesta, por exemplo, na tentativa de mudar o corpo a qualquer custo e nas agressões que vêm sob o status de beleza. Morre-se muito e mata-se muito por este narcisismo – quase sempre sinônimo de prazer momentâneo – capaz de comprometer a capacidade de estudar, de ter paciência no semáforo, de estar disponível para ajudar um amigo que não está bem. Sem auto-estima, alerta Capelatto, ninguém ‘perde tempo’ com isso. ‘‘Há prejuízo para o futuro destas crianças. A criança que não é cuidada não cuida de si própria e não cuida do outro. A ligação com a vida se fragiliza profundamente.’’
  O psicoterapeuta diz ainda que o problema independe de classe social. Ele afirma que tanto nas favelas como nos condomínios fechados o quadro que se vê é o mesmo, só mudam as condições materiais. ‘‘O estigma que acompanha a morte de muitos jovens hoje em dia – seja porque foi morto pela polícia quando roubava para pagar dívida de drogas, ou porque estava bêbado e entrou com o carro num poste, ou porque usou anabolizante animal – é tudo do mesmo tipo.’’
  A receita para mudar este quadro, de acordo com Capelatto, é fazer com que a criança e o adolescente se sintam cuidados. Porém, ele alerta: ‘‘Cuidar dá trabalho, é barulhento, traz conflitos, mas é a única saída. Precisamos o mais rápido possível sair do comodismo de apenas punir e resgatar o espírito cuidador dentro das famílias, das escolas e de todas as instituições sociais.’’

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