Com toda a tecnologia disponível no mercado, as conversas virtuais tornaram-se uma constante na vida das pessoas e as cartas manuscritas caíram em desuso. Mas o projeto Intergeracional, desenvolvido em Londrina e envolvendo alunos de uma escola municipal e um grupo de idosos, prova que o hábito pode ser resgatado. Na tarde de quarta-feira os ‘‘amigos secretos’’, cerca de 100 pessoas entre alunos e idosos que se corresponderam durante dois meses, puderam finalmente se conhecer.
  A diretora da Escola Municipal Cecília Hermínia, no Jardim Sabará (Zona Oeste), Cecília Maria Marques Nicolino, reuniu os alunos do ensino fundamental no pátio. Eles fizeram uma oração e entoaram uma canção que saudava os amigos (idosos) que ali estavam.
  Segundo a diretora, num primeiro momento as crianças ficaram apreensivas, mas depois o que era um conteúdo de sala de aula tornou-se um prazer. ‘‘Depois que começaram a ler e a responder as cartas, elas gostaram e começaram a interagir, contando as experiências da infância e questionando como havia sido essa fase para o idoso. Foi uma troca muito importante.’’
  Maria José Farias de Souza, 66, foi a responsável por distribuir as cartas aos idosos. ‘‘Eu achei o máximo a experiência, voltei a ser criança, lembrei a minha infância, os briquedos que utilizávamos. Pretendemos dar continuidade ao projeto com crianças de outras escolas’’, disse.
  Para Nair Simão Rosa, 74, a experiência foi ótima. ‘‘Tive muitas recordações do passado, quando brincava de boneca, fazia casinha, comidinha. Apesar de não saber escrever, era um prazer ditar as cartas ao meu filho, que transcrevia’’, contou. Nas cartas, Nair contou as dificuldades da infância, vivida na área rural, e revelou que era casada, mãe de cinco filhos, avó e bisavó de 8 netos e bisnetos.
  Já Maria Trinidade Gardiano Sanches, 65 anos, optou por contar como eram as brincadeiras, com ênfase ao ‘‘lenço atrás’’. ‘‘Fazíamos uma roda; uma corria e jogava o lenço atrás da outra criança. Se ela corresse e conseguisse pegar a colega que deixou o lenço, ela ia para o meio da roda’’, explicou.
  O aluno Paulo Carneiro da Silva, 10 anos, também aprovou a iniciativa. ‘‘O projeto das cartinhas foi muito bom, aprendi vários tipos de brincadeiras.’’ José Norberto Ferrareto Filho, 9 anos, disse ser muito legal conhecer as pessoas através de cartas. ‘‘Nas minhas cartas eu contei que jogava futebol, fazia aulas de natação, onde morava. A pessoa que se correspondia comigo contou que tinha três filhos e que apenas um deles morava aqui em Londrina.’’
  ‘‘É uma importante troca e a realização de um sonho da secretaria, ver o idoso ser reconhecido e respeitado na comunidade que está inserido. Peguem esse exemplo de amizade e o sigam com seus vizinhos, avós e familiares que já passaram dos 60’’, disse a secretária do Idoso, Cristina Coelho.
  O projeto foi idealizado pelas professoras Celita Klepa e Edenir da Silva Menezes, em parceria com as secretarias do Idoso e de Educação. ‘‘O Intergeracional foi pensado pela necessidade da criança conhecer o idoso, ter um contato, saber da vida que ele teve, valorizar a experiência de vida e o respeito para com o idoso’’, salientou Celita.

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