Uma praça e um homem solitário no cotidiano de Londrina
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terça-feira, 23 de outubro de 2001
Walter Ogama 
O que faz aquele homem sentar-se à mesma hora e no mesmo banco de uma praça da região central de Londrina? Que sentimentos povoam aquela mente? De segunda à segunda, às treze em ponto, ele assume o seu papel no grande espetáculo do cotidiano londrinense, como personagem solitário de uma peça teatral de inúmeros atos. Drama, comédia e romance se misturam, enquanto ônibus abarrotados trafegam a alguns poucos metros, carros poluem, ciclistas avançam sobre pedestres, e pessoas - algumas sorrindo, outras estampando no rosto os reflexos das tensões diárias -, circulam ao redor.
Ele, no seu banco e no seu horário, que dura exata meia hora, parece distante de tudo. Dá-se no direito de ocupar a praça com o seu semblante carregado de algo que parece tristeza. Só, sem dizer um boa tarde ou esboçar um movimento. Olha para um mesmo ponto, onde uma rua se abre e o sol do meio do dia ressalta os arranjos das fachadas das lojas.
Dizem que a praça, hoje vítima do desmazelo, no passado serviu para as brincadeiras das crianças e o encontro dos namorados. Não só nas tardes dos sábados, manhãs dos domingos e finais das tardes dos dias da semana, meninos e meninas corriam por ela. Casais trocavam beijos, faziam projetos de vida e trocavam juras de amor, aproveitando o descanso da hora do almoço. Ele, agora tão só, desde aquele passado - que no seu pensamento parece ainda muito presente na sua vida -, frequenta a praça, como ocupante do mesmo banco e sempre no mesmo horário.
Também dizem que, no passado, uma bela mulher surgia, pontualmente, por aquela rua que dá de frente ao banco da praça. Ela, usando uniforme de balconista, e ele, denunciando ser um bancário pelo jeito de se vestir, se abraçavam, trocavam beijos, juravam amor e planejavam noivado, casamento e família.
Conta o velho operário, escorado sobre o cabo da pesada vassoura, que é testemunha dessa história. Um dia ela se foi, pela mesma rua por onde vinha diariamente, sem olhar para trás e sem carregar no rosto a felicidade que era comum. E ele ficou, desde aquele dia, a esperar por ela. Informa o velho operário, enquanto empurra o seu carrinho de lixo pela praça, que até ontem ela não voltou e nem devolveu o sorriso para aquele homem, sentado no mesmo banco e sempre no mesmo horário. Diz o operário, no momento em que apanha folhas mortas caídas na grama, que só restará ao homem triste esperar, esperar e esperar pela moça que, ao que ele sabe, seguiu para longe e deixou seu amor habitando um coração que tem a esperança de poder abrigar, quem sabe um dia, uma moradora que o encha de felicidade.


