Bombeira é um termo que causa estranheza, mas com o qual a população de Londrina pode começar a se habituar. Pela primeira vez em toda a história do Corpo de Bombeiros de Londrina (que já tem 54 anos), uma mulher assumiu o serviço até então exclusivo para homens.
Roberta Kelly da Silva, 25 anos, apresentou-se na segunda-feira ao quartel de Londrina, depois de passar oito meses em Curitiba e outros dois em Cornélio Procópio. Se a soldado Kelly é novidade para a corporação, estar entre militares não é novidade para a jovem, que é filha e irmã de bombeiros. ''Sempre vi os dois trabalhando, e tinha um certo interesse. Quando vi que abriu vaga, resolvi tentar'', conta a jovem, que é formada em pedagogia e chegou a dar aulas de educação infantil.
Por enquanto, ela está atuando na secretaria do comando, mas, segundo o capitão Wilson Oliveira Paulino, isso não a impede de sair às ruas para atender emergências ou participar da escala de plantão. ''Ela está na parte administrativa apenas por uma questão de necessidade momentânea. Logo ela pode estar trabalhando nas ruas, junto com outros soldados'', explica o capitão.
Paulino conta que o quartel vai precisar passar por algumas alterações, como a construção de um novo alojamento e vestiário. ''No alojamento dorme-se fardado, então não teria problema. Mas os vestiários são restritos. Hoje, ela usa o mesmo que a enfermeira e as mulheres da manutenção'', comenta.
Para ele, apesar de ter algumas limitações físicas, Kelly tem algumas vantagens em relação aos homens. ''Ela tem o porte esguio, que pode ajudar em determinadas situações. Também pode trazer um diferencial ao serviço administrativo'', compara.
A jovem também não crê que ser mulher possa se tornar um empecilho ao seu trabalho. ''Não senti dificuldades durante o curso, e consegui realizar tudo o que me foi cobrado. Com o domínio da técnica, é possível efetuar os trabalhos, independentemente de ser homem ou mulher. E a gente está sempre em grupo, nunca trabalha sozinho'', alega.
Para ser aprovada nos rigorosos exames físicos, que incluem percorrer 2.400 metros em 12 minutos, Kelly começou a se preparar seis meses antes da prova, e contou com o apoio e incentivo do irmão e do pai, que inclusive ajudaram nos treinamentos. Ela formou-se no ano passado em Curitiba, em uma turma de 40 alunos (dos quais 38 eram homens). ''Na época, a lei determinava que se destinasse 6% das vagas disponíveis para mulheres. Hoje, pode ser até 50%. Com isso, acho que vai aumentar o número de mulheres bombeiras'', comenta a jovem. A primeira turma que incluía mulheres formou-se em 2005, com 23 mulheres.
A bombeira conta que não estranha o fato de estar no meio de dezenas de homens, mas que o pioneirismo ainda causa um certo estranhamento. ''É preciso que haja paciência tanto da minha parte quanto da parte deles nessa fase de adaptação'', afirma, garantindo que até agora não precisou enfrentar nenhuma manifestação machista. Mas a responsabilidade que Kelly diz sentir em suas costas não é decorrente do fato de ser a primeira mulher, mas pela função em si, que inclui apagar incêndios e socorrer pessoas.
''Descobri meus limites e descobri que conseguia realizar muitas coisas. As mulheres têm que tentar, porque, assim como eu, qualquer pessoa tem condições de ser bombeira. Agora com uma divulgação cada vez maior, acredito que mais mulheres se interessem pela profissão'', afirma a jovem, acrescentando que muitas amigas perguntam como fazer para entrar na corporação. ''Minha irmã mais nova também está se preparando para seguir a mesma carreira'', conta.
Dentre os planos da bombeira de Londrina, estão o de fazer o curso de socorrista, para poder trabalhar no Siate. Mas ela não pára por aí. ''Quero ver se faço o curso de cadetes no ano que vem. Pretendo um dia chegar a sargento''.

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