Uma manhã de segunda
Walter Ogama
Tudo era gigantesco para o menino e ele caminhava aos solavancos, tropeçando nas imperfeições do petit pavê do Calçadão. Olhinhos arregalados apontados para o topo dos prédios muito mais altos do que os abacateiros que ele subia com agilidade , o menino imaginava como seria lá em cima. Daria para avistar distante, como ocorria quando ele trepava no último galho da mangueira para enxergar a água do rio cortando a terra e descendo lá no rumo do sítio do padastro Alfredo? E o pai ralhava, remendado pela mãe:
Vamos menino! Parece que você está andando que nem tonto, tropeçando toda hora.
Vai estragar a ponta do tênis e eu te bato.
Só assim o menino despertava do mundo da imaginação. Andava por algum tempo cabisbaixo, tentando nas pisadas acertar as pedrinhas brancas com o pé direito. Passinhos curtos, vez em quando ele saltitava para não errar.
Tá parecendo caipira? Não dá vexame, menino, anda direito.
Então o menino levantava os olhinhos, não para olhar para frente como os pais queriam, mas para ver as vitrines das lojas com seus móveis, eletrodomésticos, roupas e calçados atraentes. E o menino trombava nas quinas das floreiras, arrancando dos pais indignações:
Da outra vez você fica em casa.
Não trago mais este moleque pra cidade.
Mas era muita coisa para se ver numa manhã de segunda-feira no centro de Londrina. Ele, que muito raramente era trazido para a cidade, há tempos não assistia a um espetáculo de gente, carros, lojas e prédios.
Seu pequeno mundo ficava pouco além da moradia modesta de madeira sem pintura, a cerca de 500 metros da casa principal do sítio onde o pai trabalhava como administrador. Abaixo, para quem saia pela porta da cozinha, a uns trezentos metros descendo um descampado havia um pedacinho de terra protegido por uma tela de arame que cercava três leitões. O menino e a mãe eram os responsáveis pela pequena criação. Dois dos animais eram engordados para venda. Um ficaria para as festas de fim de ano da família.
O menino era o mais novo dos dois filhos do casal e com os seus quatro anos nem a escola do patrimônio ainda frequentava. Seu cotidiano, assim, nem podia ser outro: fosse domingo ou segunda-feira, acordar, tomar o leite tirado da vaca que o dono do sítio repartia com o pai, comer a fatia de pão caseiro que a mãe religiosamente assava nas tardes de sábado e depois ajudá-la a tratar dos leitões.
Cumprida essa única tarefa do dia, o resto era brincar. Subir nas árvores, descer até o ribeirão e colocar formigas sobre folhas de mangueira para vê-las descendo correnteza como se fossem gente seguindo de barco, atirar pedras nos passarinhos, amarrar trapo no rabo do vira-lata só para vê-lo rodopiar, imaginar estar dirigindo um caminhão fazendo o ronco do motor com a boca e usando uma tampa de lata de leite em pó como volante.
De segunda a segunda a vida era essa. Quando muito as brincadeiras variavam. O aparelho de televisão ele não mexia. Quando assistia, era porque o pai ou a mãe ligavam o aparelho na hora do noticiário ou das novelas.
Então havia muitos motivos para o menino andar na cidade tropeçando, esbarrando, vomitando curiosidade pelos olhinhos pretos. Tudo era imenso na cidade, tudo era bonito. Até aqueles lugares onde as pessoas ficavam sentadas em cadeiras de plástico, ao redor de mesas também de plásticos. O que fariam aquelas pessoas, enquanto tantas outras corriam apressadas de um lado a outro do Calçadão?
Uma boa pergunta e um outro motivo para desviar a atenção e andar olhando para os lados. As pessoas comiam e bebiam coisas que ele não conhecia, mas até pelo cansaço provocado pela manhã fora da rotina ele sentia vontade de experimentar. Coisas que, na imaginação do menino, eram gostosas, porque as pessoas as devoravam com dentadas gulosas. E o menino quis também comer, mas não pediu um daqueles para os pais. Só os seguiu, meio correndo, olhando para os lados e para trás.
Pensando: quanto tempo demoraria até chegar em casa, onde teria um prato de arroz, feijão, salada de alface e linguiça? E as pessoas, ali comendo e bebendo ao ar livre, não viram o menino passar e tampouco puderam conferir o seu olhar de desejo.





