Um dia, a mulher pobre que já havia presenciado muito sofrimento no interior de Pernambuco esmoreceu. Na sua frente, uma criança morreu de fome. Naquele momento ela rogou aos céus força e proteção para que esta cena jamais voltasse a se repetir na sua presença. E assim, como que por milagre, tem sido nos últimos anos.
Na vida de Elvira Duarte de Moraes, 62 anos, falta quase tudo. Recursos, conforto, estudo, lazer, espaço. Porém, junto com as dificuldades sobram solidariedade, coragem, sensibilidade, fé, amor ao próximo. E, por sorte, saúde. Mãe de 13 filhos, dona Elvira garante que nunca pisou num consultório médico ou hospital. ‘‘Quatro dos meus filhos nasceram com menos de um ano de diferença entre um e outro’’, diz ela, com uma naturalidade que chega a surpreender.
Na Pastoral da Criança, onde atua há 15 anos, dona Elvira é chamada de mãezona. E com razão. No coração desta mulher, que sobrevive da aposentadoria de R$ 218,00 recebida pelo marido e dos trocos conseguidos com a venda de panos de prato, tapetes de retalhos e trabalhos em crochê - que não rendem mais que R$ 50,00 mensais - o amor parece não ter limites.
Muitas vezes, comovida com os casos encontrados nas peregrinações pelas casas de famílias acompanhadas pela Pastoral, ela levou para casa - e salvou - crianças à beira da morte.
Foi assim com Gisele, atualmente com 12 anos. Dona Elvira não esconde as lágrimas ao lembrar de como a garota entrou em sua vida: ‘‘Ela tinha um ano. A encontrei numa cama, paralisada, de tão subnutrida que estava. A mãe, já com quatro filhos e grávida de mais um, me confessou que não tinha condições de criar a menina, por isso estava deixando que ela morresse de fome. O que eu podia fazer naquela hora? Pedi que deixasse eu levá-la, mas a mãe, apesar de tudo, não queria. Insisti durante três dias, até que ela aceitou’’.
Dona Elvira conta que cuidou de Gisele durante 10 meses. Quando a garota recuperou a saúde, tentou devolvê-la à família. ‘‘Levei a menina de manhã e deixei com a mãe. Na hora do almoço ela apareceu com a Gisele na minha casa e deixou um recado com uma das minhas filhas, dizendo que já que eu tinha salvado a nenê, eu que criasse’’.
Neste momento dona Elvira pára de falar, faz um esforço para controlar a emoção. Aos poucos, ela retoma a história: ‘‘Mais uma vez pedi para Deus me ajudar. Reuni meus filhos, expliquei a situação e perguntei se eles me prometiam que nunca iam tratar a Gisele com preconceito, por ela ser negra. Eles disseram que não, e cumpriram’’. A mãe adotiva afirma que apesar das dificuldades, nunca faltou nada à garota.
Antes de Gisele, outros casos semelhantes já haviam acontecido. Na falta de alimentos variados para oferecer às crianças acolhidas em sua casa, dona Elvira costumava lançar mão de uma receita simples, porém nutritiva: ‘‘Eu passava no açougue, comprava uns pés de frango e cozinhava bem com um pouco de arroz. Se tinha legumes, colocava no meio e dava a eles’’.
A multimistura, fornecida pela Pastoral da Criança, também ajudou, e muito, a recuperar estas vidas. ‘‘Eu mesmo não fico sem o ‘farelo’. Como todos os dias com leite. É um fortificante’’, ensina.
Mas na época que os próprios filhos eram pequenos e a família morava em um sítio no município de Assaí (36 km a leste de Londrina), a multimistura ainda não existia e os principais ingredientes da dieta da família eram mandioca, ovos e fubá, conseguido com a entrega de milho em um moinho.
Era início da década de 60 e o café e o algodão ainda sustentavam a maioria das famílias na zona rural.
Com a erradicação das lavouras de algodão, a família Moraes passou a enfrentar sérias dificuldades, e a saída foi tentar a sorte na cidade. O dinheiro para pagar a mudança para Londrina foi conseguido com a venda dos móveis da cozinha.
‘‘Quando chegamos aqui, um parente arrumou para a gente morar na Favela Vila Rica (hoje Jardim Leste-Oeste, zona Oeste da cidade), onde estamos até hoje’’, explica dona Elvira, lembrando que moraram durante vários meses em 12 pessoas numa casa de dois cômodos.
Atualmente todos os filhos estão casados, Gisele está crescida, e a mãe bem que podia aproveitar para descansar. Mas isso é difícil, para quem convive tão de perto com a miséria. Há dois meses dona Elvira levou para casa mais duas meninas, Michele, de oito anos, e Cintia, de sete. Os pais e parentes foram todos presos, por tráfico de drogas.
Elas e mais três garotos, da mesma família, ficaram praticamente sozinhos. ‘‘Os meninos eu estou procurando acompanhar e se conseguir ajuda para comprar comida também vou criar. As meninas já estão lá em casa’’, diz dona Elvira, para em seguida justificar tanta disposição: ‘‘A fome foi a pior doença que eu já deparei em toda a minha vida’’.

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