Uma longa história de amor e compromisso
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Carolina Gabardo Belo<br>Equipe da Folha 
"Se a Igreja aceitar esse projeto, vamos salvar a vida de milhões de crianças", disse a médica pediatra e sanitarista Zilda Arns Neumann, 74 anos, aos seus cinco filhos na noite em que estruturou o projeto de atuação da Pastoral da Criança. A proposta da dra. Zilda, criada em 1983 a pedido da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), era organizar as comunidades em pequenos grupos e promover a multiplicação de conhecimento a partir da capacitação de líderes comunitários e da educação das mães em cinco áreas de trabalho: pré-natal, aleitamento materno, soro caseiro, vigilância nutricional (acompanhamento do peso e da alimentação) e vacinação. Religiosa e devota de São José, a médica se inspirou no milagre da multiplicação dos pães e peixes.
A proposta refletiu uma preocupação que ela tinha desde o começo de sua carreira, quando trabalhava no Hospital de Crianças Cezar Pernetta e ocupou o cargo de diretora de Saúde Materno-Infantil da Secretaria de Estado de Saúde do Paraná. "Eu sempre me questionava se iria exercer a medicina para curar doenças que são preveníveis", lembra. Com a pastoral, dra. Zilda começou o que ela chama de "uma longa história de amor" e também realizou um sonho antigo: ser missionária e atender crianças.
Junto com Dom Geraldo Majela Agnello, Cardeal Arcebispo Primaz de São Salvador da Bahia, escolheu o município de Florestópolis (73 km ao norte de Londrina) para realizar o trabalho piloto. A indicação foi da irmã Eugênia Pietta, que ressaltou a importância do projeto na cidade devido ao grande número de "covas novas de crianças no cemitério". Toda a população se comprometeu a participar da experiência, apresentada na missa de domingo e com direito a igreja lotada. Depois de Florestópolis, a metodologia de trabalho se espalhou para todo o Brasil e hoje, além de todos os estados brasileiros, é realizada em 17 países.
Dra. Zilda ressalta que o trabalho da pastoral busca possibilitar o desenvolvimento completo para as crianças e gestantes de baixa renda. Além do acompanhamento do peso, vacinação e orientações sobre como prevenir doenças e a importância da alimentação completa, a pastoral também oferece educação para jovens e adultos, cursos de alfabetização e capacitação, brincadeiras para as crianças, criação de hortas comunitárias, e o controle social, ou seja, o acompanhamento das políticas públicas direcionadas às crianças. "Queremos trabalhar a integralidade", afirma. Por isso, a médica explica que, no combate à desnutrição, a multimistura, composta por farelos e sementes, é um complemento à alimentação que deve ser completa e rica em nutrientes.


