Uma inspiração para vencer na vida
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terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Janeiro é um mês fatídico na vida dos vestibulandos. Neste mês, algumas faculdades realizam seus vestibulares, outras divulgam a lista de aprovados, e os estudantes enfrentam um turbilhão de tensões - que pode ou não ter um final feliz. Quem passou e não sabe se será um bom aluno, quem não passou e precisa reunir forças para estudar tudo de novo e principalmente quem sequer cogitou a idéia de fazer um vestibular, têm pelo menos um exemplo na Universidade Estadual de Londrina (UEL) em quem se inspirar.
Simone Lopes Viotto Rodrigues, 30 anos, é mais uma na lista dos alunos que trabalham e estudam. Mas seu caso é diferente: ela cursa enfermagem, que é integral, e trabalha à noite em uma biblioteca setorial da UEL. E ainda cuida da casa e de seus dois filhos. E faz estágio na hora do almoço.
Mesmo com essa tripla (ou seria quádrupla?) jornada, ela acaba de passar para o terceiro ano sem nenhuma reprovação. ''Como a maioria das atividades do curso são no HU (Hospital Universitário) e eu trabalho na UEL, dá para estudar dentro do ônibus. Também estudo em casa, depois do expediente'', conta.
De família simples, ela revela que seus pais não tiveram muita instrução, mas sempre incentivaram muito o estudo e a leitura. ''Minha mãe terminou o segundo grau depois dos 40 anos'', comenta, acrescentando que outros dois irmãos seus também passaram em vestibulares da UEL. Foi com esses exemplos que Simone, apesar de ter desistido de prestar vestibular para psicologia quando terminou o segundo grau, acabou matriculando-se, depois de alguns anos, em um curso de auxiliar de enfermagem. Depois, cursou o técnico em enfermagem. ''Meu pai dizia orgulhoso que eu era enfermeira, e eu dizia que não era. E ele respondia: um dia vai ser'', narra Simone, reconhecendo que, afinal, ele estava certo.
Outro orgulho que a família ostenta com razão foi o fato de Simone ter passado em seu primeiro vestibular, sem fazer cursinho, superando uma concorrência de 15 candidatos por vaga. ''Minha filha não tinha nem um ano, então eu prestei só para ver como era. Minha intenção era fazer cursinho e tentar novamente mais para a frente'', confessa. A estudante admite que os conhecimentos adquiridos com o técnico em enfermagem ajudaram na hora da prova, mas reconhece também que o fato de gostar de ler também contribuiu para seu bom desempenho nas provas, principalmente de português.
Na época da aprovação, ela trabalhava como zeladora na UEL, mas conseguiu transferir seu trabalho para a noite, reduzindo um pouco a carga horária, para poder frequentar as aulas. Por conta disso, precisa trabalhar também aos sábados, o dia todo. Na falta de tempo para a família, ela monitora por telefone as atividades dos filhos, e conta ainda com o apoio da família em todos os momentos. A mãe cuida dos filhos (um menino de 8 anos e uma menina de 3 anos), o marido auxilia nas tarefas de casa, a irmã de vez em quando leva as crianças para passear e até a sobrinha de 15 anos dá uma mão.
Mas ainda assim ela não consegue deixar de sentir uma certa culpa por dispor de tão pouco tempo para as crianças. ''Está sendo muito difícil. Quando chego em casa eles já estão dormindo, e meu marido me conta o que eles fizeram, as gracinhas que a mais nova aprontou. No começo meu filho reclamava bastante, tentava ficar acordado até eu chegar'', afirma, com os olhos marejados. Porém, certa de que tanto esforço vale a pena, a futura enfermeira não pretende parar tão cedo. ''Quero fazer pelo menos uma especialização. Não vou parar. A vida é curta e o tempo é valioso. E estou fazendo isso para poder proporcionar mais conforto e um futuro melhor à minha família.''
A história de Simone tem servido ainda de exemplo para as pessoas ao seu redor. A prima acaba de entrar na UEL, e a irmã caçula também pensa em concluir os estudos e cursar uma faculdade. ''Quero que minha história incentive as pessoas, que elas vejam que é difícil, mas é possível. Quando a gente pensa que não vai conseguir, arruma força não sei de onde'', garante.


