‘‘Já aprendi tanto com os bichos que até a questão do amor às pessoas aumentou muito mais.’’ É o que diz a professora de música Marina de Oliveira Paula, 33 anos, solteira, moradora em Assaí (36 km a leste de Londrina). Ela costuma adotar gatos doentes ou abandonados que vê pelas ruas da cidade. Anos atrás Marina pensava: se casasse e tivesse um filho deficiente, não teria coragem de assumir a maternidade. Hoje não. Seu modo de pensar mudou muito. Aprendeu com os animais, ‘‘que são muito amorosos, amam sem receber nada em troca e até adotam filhotes de outras gatas’’.
A sabedoria popular relaciona os gatos com traição, mas, para Marina, isso é lenda. ‘‘Eu convivo muito com gatos e se algum deles agride é porque foi atacado. E não são todos. Se for tratado com carinho, mesmo quando agredido, não reage.’’ Marina já enfrentou problema sério com as pessoas que passavam na rua e ficavam sabendo que criava vários bichos em casa. Comentavam que se fosse de raça ainda poderia vender e ganhar dinheiro. E que ela não era uma pessoa normal, era doente e precisava ser internada na ‘‘Colina Verde’’, em Londrina (antiga clínica psiquiátrica). Havia também quem achava que Marina tinha bom coração e deveria fazer atos de caridade.
Em decorrência disso, começou a aumentar o número de gatos. Dos 20 iniciais, chegou a ter 80, em 1996, porque as pessoas começaram a trazer sacos com gatinhos recém-nascidos e a soltá-los no quintal dela. Também mandavam levar gatos para ela, contrariando seu objetivo que era tão somente o de adotar os doentes e abandonados.
Para abrigá-los à noite e da chuva, teve que construir um viveiro no quintal. Atualmente tem 30 gatos adultos entre machos e fêmeas. Apesar das despesas que tem com ração, peixe e fubá para alimentá-los, além de vacinas e remédios contra vermes, Marina não pensa em fazer doação dos gatos.
A maioria deles tem nome: Guto, Mima, Négio, Buiu, Garota e em especial a Ká, que é uma mestiça angorá. Sua história é mais longa, pois foi trazida da rua ainda pequena, há 16 anos, pela mãe de Marina. Cresceu, teve várias crias e quase morreu ao enfrentar uma cirurgia por dificuldade em parir os filhotes.
Marina já ajudou muitas de suas gatas com esse tipo de dificuldade e também já atendeu pedido de ajuda de vizinhos. Acha interessante que todas as gatas que ela ajudou, em novas crias, a procuram para ficar perto dela.
Marina disse que adora todo animal de pêlo desde criança, quando morava em uma chácara da Seção Central, em Assaí. No caminho da escola, encontrava fêmeas abandonadas e miando muito. Por achar que estavam com fome, levava-as para casa e terminava apanhando de sua mãe com vara verde. Era obrigada a soltá-las novamente e chorava muito, ‘‘não por causa das varadas, mas por dó dos bichinhos’’, conta Marina.
Quando ficou adulta, continuou a fazer o mesmo. Mas enquanto estava trabalhando, sua mãe soltava os gatos. Assim foi até que um dia ela soltou um gatinho doente. Por causa disso, agrediu sua mãe com palavras pesadas alegando que ‘‘bicho é ser vivente e tem sentimentos’’. Por ter chorado vários dias, sua mãe refletiu sobre o caso, arrependeu-se e saiu à procura dele, mas não o encontrou. Depois disso nunca mais soltou os bichinhos doentes.
A saleta onde Marina dá aula é decorada com pequenos quadros de gatos. São 27 trazidos de Campinas (SP), por ocasião de uma viagem.





Vânia Moreira350 animaisProfessora Iracema Prado, presidente da Sociedade de Amparo aos Animais de Umuarama: abrigo para cães, gatos e até equinos sem dinheiro para as despesasDuas professoras vencem as críticas de alguns vizinhos e encontram forças para dispensar atenção especial aos animais. Marina de Oliveira Paula, 33 anos, de Assaí, adota gatos doentes ou abandonados que encontra nas ruas da cidade; Iracema Prado, 62 anos, de Umuarama, preside uma entidade de amparo aos animais que mantém um viveiro para cerca de 350 cães e gatos. Entidade gasta em média R$ 2,5 mil por mês e precisa de ajuda




Therezinha Thomaz
Amor aos gatosProfessora de música Marina de Oliveira Paula, de Assaí: viveiro construído no quintal mantém atualmente cerca de 30 gatos adultos, entre fêmeas e machos

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