Uma história contada pela arquitetura
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terça-feira, 26 de junho de 2012
Micaela Orikasa <br> Reportagem Local 
''Do esquecimento quase não se fala, afinal, é esquecimento''. Essa é uma das justificativas dadas pelo professor de História Cultural da Universidade Estadual de Londrina (UEL), André Joanilho, sobre a exposição ''Ruínas da Memória''.
Através de 39 fotos de fachadas, muros, janelas e portas de construções das décadas de 50 e 60 de Londrina, Joanilho quer despertar o olhar da população para esses locais, a fim de valorizar detalhes esquecidos pelo tempo e quem sabe, provocar a necessidade de conservação.
Os registros podem ser vistos até hoje, no Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) da UEL, e em seguida vão para a Biblioteca Central do campus. ''A ideia surgiu pelas minhas andanças pela cidade. Após a Lei da Cidade Limpa, percebi que surgiu praticamente uma outra Londrina. E concluí que os detalhes não foram feitos para serem lembrados e, por isso, passam despercebidos'', explica.
Os locais escolhidos pelo professor estão na Região Central, como nas ruas Benjamin Constant, Belo Horizonte, Sergipe e Mato Grosso. ''São lugares familiares para os londrinenses e que certamente desaparecerão devido à velocidade da construção civil'', comenta Antônio Carlos Zani, professor de Arquitetura da UEL.
Com 31 anos de experiência na área, Zani explica que hoje temos um estilo de vida totalmente diferente da época em que essas casas e prédios foram erguidos. Segundo ele, a arquitetura dos anos 50 e 60 também tinham certa velocidade, mas as preocupações da sociedade eram outras. ''As varandas e os muros baixos revelam que o contato dos moradores com as ruas era maior. As pessoas passeavam mais, conversavam com os vizinhos e não havia preocupação com a segurança. O cotidiano era diferente do de hoje. E os mais abastados naquela época, optavam por morar em casarões, que começaram a surgir em Londrina já na década de 40'', relata.
Casarões
Nas Ruas Belo Horizonte e Maragogipe, três grandes casas foram registradas por Joanilho. Duas delas pertencem à família Sayão e até hoje despertam a curiosidade de vizinhos e transeuntes. ''Essas casas sempre chamaram a atenção. Tem gente que até para para fotografar. Eu acho lindo, pois parecem aquelas residências estrangeiras'', comenta a dona de casa Alice Pereira de Brito, que mora em frente ao casarão da Rua Maragogipe.
O comerciante aposentado Antônio Cândido Filho, de 77 anos, se lembra do dia em que comprou a residência na Rua Belo Horizonte. Foi em 1973, quando a família pioneira Calderon, conhecida pelo comércio e cultivo de café, resolveu vender a casa construída em 1959.
''Quando me mudei, ela era conhecida nesta região como a 'casa bonita''', conta o morador, ao confesssar que nunca realizou uma reforma. ''Para mim foi muito vantajoso porque eu tinha um comércio de autopeças aqui perto. Além disso, é uma casa bem grande'', diz.
Na observação do arquiteto Zani, muitos casarões que se ergueram fora da Avenida Higienópolis são justificadas pela prioridade que as famílias tinham em morar próximo aos seus negócios, principalmente aos galpões de café que até hoje se mantêm na Rua Paraíba acima da Avenida Leste-Oeste, onde antigamente existia a linha de trem.
''Se a gente se apoiar na história da ocupação desta região, podemos dizer que os migrantes e imigrantes trouxeram a herança de suas moradas, principalmente os paulistas, que se baseavam na arquitetura das grandes cidades de São Paulo. Eram casas grandes e com estilo personalizado'', ressalta.


