Uma história a cada parto
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domingo, 26 de dezembro de 2010
Wilhan Santin<br>Reportagem Local 
O relógio aponta 19h. É hora de troca de plantão na Maternidade Municipal Lucila Balalai, de Londrina. Médicos, enfermeiros e auxiliares que saem enfrentaram um turno corrido: seis nascimentos em seis horas. O pessoal que assume está preparado para uma madrugada de quinta-feira de muito trabalho - ficarão até as 7h da manhã. No plantão anterior da mesma equipe foram 10 partos. Porém, a natureza tem seus caprichos e a noite vai ser mais tranquila - mas não menos emocionante.
Uma grávida acaba de passar por avaliação e é internada. Ela é Karina Alessandra Nunes Vieira, 19 anos. Está ansiosa. Conta que a cada 10 minutos sente uma forte contração. ''Queria que nascesse logo'', comenta a moça, que vai dar à luz seu segundo filho.
Enquanto Karina aguarda, acaba de nascer um menino: Igor Rafael, medindo 53 centímetros e pesando 3,9 quilos. Os pais são Gislaine Padilha Ribas, 19, e Vantuir Aparecido, 35. Enquanto a mãe amamenta o garoto pela primeira vez, o pai é só orgulho: ''É o melhor presente de Natal que qualquer um pode ganhar'', diz Vantuir, com sorriso de orelha a orelha. Em seguida, ele ajuda a dar o primeiro banho em Igor Rafael. Desajeitado, ele que é mecânico por profissão não está acostumado a lidar com algo tão frágil, mas se mostra esforçado. ''Tenho medo de machucá-lo'', confessa, para depois tirar da bolsa do bebê um par de pequeninas meias do Corinthians. ''Nasceu mais um corintiano'', brinca.
No corredor, Gislaine caminha de um lado para outro, silenciosa. Vez ou outra esboça um sorriso nervoso.
Na enfermaria estão 26 mães. Elas aguardam o momento de ir para casa. Devem ficar por ali, no mínimo, 48 horas. Durante toda a noite, é possível escutar de lá choro de bebês. Quando um para, outro começa.
Às 22h, o cenário é de tranquilidade. A campainha que avisa sobre a chegada de grávidas para a avaliação começa a tocar. Trabalho para Maicon Junglos Siqueira, 23, e David Lúcio Almeida, 28; dois internos do 5º ano de Medicina da Universidade Estadual de Londrina (UEL) de plantão na Maternidade. Falta-lhes docente para a supervisão. Atenciosos, eles fazem o primeiro atendimento e acionam os obstetras e pediatras de plantão.
Entre as futuras mães que chegam, algumas são adolescentes. A mais jovem tem 15 anos. O pai da criança que ela espera está junto, tem 17. Amanhã, a Maternidade Municipal completa 18 anos de seu primeiro parto; a instituição mal sai da adolescência e já é ''avó'' de várias crianças. ''Muitas meninas que nasceram aqui já voltaram na condição de parturientes'', conta a enfermeira obstetra Marili Aparecida Rocha, 37, que trabalha por ali há 17 anos.
Entre uma avaliação e outra, já estamos na madrugada. As dores de Karina aumentaram. A dilatação também. Ao lado do marido, Jean Cléber, 19, que foi do serviço direto para a maternidade, ela está deitada em um leito do pré-parto.
São 3h20. As avaliações não param de chegar. Quatro mulheres já foram internadas desde o início do plantão. Uma delas, na oitava gestação, já está com a bolsa rompida.
Karina reclama, pede ajuda. As dores são muito intensas. Os internos de Medicina e a enfermeira orientam. Ela chora. A dilatação é grande, mas a bolsa de líquido amniótico ainda não rompeu.
Às 4h30, o obstetra Carlos Gonçalves examina a moça. Resolve fazer um procedimento chamado amniotomia para romper a bolsa. Em seguida, os batimentos cardíacos do bebê diminuem. É preciso uma intervenção de emergência. ''Marili, por favor, leva a moça para o centro cirúrgico'', pede o médico. Entram em ação a pediatra, um anestesista e outro obstetra, além de David Lúcio, que faz o papel de instrumentador. Muito tímido, Jean Cléber resume o que sente neste momento em uma frase: ''Meu Deus do céu''.
Meia hora depois, a boa notícia: Leonardo nasceu e está bem. Mede 49 centímetros e pesa três quilos. ''Ele havia entrado em sofrimento por encaixar na posição errada para nascer. A cesárea, porém, foi tranquila'', explica Gonçalves.
Mãe e filho passam bem. A família teve um feliz Natal.


