Os avanços tecnológicos criam sonhos de consumo e os derrubam com a mesma velocidade. Quem não se lembra do ‘‘revolucionário’’ computador 486, das impressoras matriciais ou mesmo do fax? Porém, há os objetos que permanecem, resistindo às previsões mais pessimistas.
  A máquina de escrever é um dos exemplos mais representativos. Grande, pesada, com teclas que exigem força nos dedos e nem um pouco prática na hora de corrigir os erros, ainda assim ela mantém sua utilidade dentro de vários escritórios. Quem atesta isso é Gervásio Gonzalez, 73 anos, proprietário de uma casa de máquinas de escrever no Centro, que comercializa e conserta essas máquinas há 40 anos em Londrina.
  Segundo o comerciante, deve haver na cidade umas 20 lojas ou oficinas que ainda trabalham com essas máquinas, e serviço não falta. ‘‘É raro passar um dia em que eu não comercializo uma máquina’’, comenta. O público? ‘‘Gente nova, velha, de tudo um pouco.’’
  Gonzalez revela que uma máquina pode custar entre R$85 e R$450, dependendo do modelo e ano de fabricação. Mas, ao contrário dos novos equipamentos, que vão perdendo o valor com o passar do tempo, máquinas mais antigas viram relíquia, e não sucata. O comerciante conta que há algumas semanas vendeu uma máquina de 110 anos e outras duas de 88 anos em perfeitas condições para um colecionador. ‘‘A máquina de escrever você compra para durar, passa de pai para filho. Já o computador, não. Você compra um hoje, é uma grande tecnologia que daqui a três meses vira sucata’’, compara.
  Além de não depender de energia elétrica e não haver risco de perder todas as informações devido a uma pane, a máquina de escrever, na visão de Gonzalez, ainda pode ser mais ágil que o computador. ‘‘Imagina se você tiver que ligar o computador, esperar carregar, para depois imprimir um cheque. Nesse meio-tempo já tinha batido 20 a máquina’’, exagera.
  Gonzalez é paraguaio, e chegou a Londrina em 1954. Ele aprendeu o ofício em sua terra natal, e, além de profissional do ramo, se diz um apaixonado pelas máquinas de escrever tradicionais. Mas o comerciante trabalha também com máquinas elétricas e eletrônicas, calculadoras, cartão-ponto, fax e até máquina de imprimir em braile.
  Aos 73 anos, este profissional ‘‘das antigas’’ garante que vai trabalhar ‘‘até quando der’’, e diz não saber se algum de seus filhos vai querer continuar o ofício depois. Mas orgulha-se de mostrar a coleção de máquinas de um dos seus três filhos. Uma delas, inclusive, teria sido fabricada especialmente para as trincheiras da Segunda Guerra Mundial, e não faz aquele famoso barulhinho tec-tec.
  O comerciante revela que muita gente o procura para vender ou mesmo doar as máquinas antigas, algumas muito bem-cuidadas, e comenta que é preciso voltar a valorizar esse equipamento. ‘‘Jogar uma máquina de escrever fora é um crime. Por quanto tempo essa máquina serviu? Quanto dinheiro não se ganhou fazendo trabalhos nela? Só porque ficou velha vai jogar fora? está errado!’’, critica.

mockup