Uma família que vai longe
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terça-feira, 23 de janeiro de 2018
Simoni Saris<br>Reportagem Local 

A expectativa média de vida do brasileiro é de 75,8 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, e a cada ano há uma evolução na longevidade da população nacional. No Paraná, a esperança de vida é um pouco maior, de 77,1 anos. Mas para uma família de seis irmãos londrinenses as estatísticas não se aplicam. O mais velho deles já ultrapassou em mais de duas décadas a média calculada pelo IBGE e há muito deixou para trás os pequenos avanços apontados pela Tábua de Mortalidade. Em abril, o médico aposentado Sebastião Avelino Lopes vai reunir toda a família em Curitiba, onde reside, para a festa de seu 98º aniversário. Além dos muitos anos vividos, a família comemora também a qualidade de vida de seus integrantes. Entre eles, é comum atingir a casa dos 90 anos com boa saúde e muita disposição.
Somadas as idades dos seis irmãos, são mais de 550 anos de vida. Nenhum deles consegue definir o fator que os diferencia da população média de idosos no Brasil, mas os parentes têm uma certeza: o DNA exerce papel determinante na expectativa de vida da família. O patriarca, Sebastião Lopes, viveu até os 83 anos e a esposa, Virgínia, morreu aos 86 anos. Ambos faleceram há mais de 30 anos, quando a expectativa de vida no País não chegava aos 65 anos de idade.
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Respeito entre as gerações
Mas também paira na família a desconfiança de que a genética é apenas um item entre um conjunto de fatores que contribuiu para aumentar a longevidade. Boa alimentação, atividade física e intelectual constante e cuidados médicos preventivos são alguns deles.
Os irmãos foram criados na fazenda, com comida farta e saudável, e depois de se mudarem para a cidade mantiveram os bons hábitos alimentares e sempre deixaram de fora da dieta os alimentos ultra processados e os refrigerantes. Mas alguns prazeres da mesa não foram abolidos com o avanço da idade. "Adoro vinho e cerveja. Gosto de uísque também. Se tiver todo dia, eu tomo", confessa Ediotilde Lopes Scrivanti, 92.

Até alguns anos atrás, Ediotilde era adepta das longas caminhadas. Na companhia da irmã Alzira Lopes Zitelli, 95, ela caminhava diariamente da região central da cidade até as proximidades do Hospital Universitário. "Nós nos levantávamos às 5h30 e às 6 horas já estávamos na rua. Íamos até perto do HU e às 8h30 já estávamos de volta", relembra Alzira.
Maria de Lourdes Lopes, 91, também fez caminhadas por muitos anos, mas parou por conta de uma hérnia, que lhe causa dores. E o médico aposentado Antônio Sílvio Lopes, 89, caminha no Zerão diariamente, além de praticar pilates e fazer fisioterapia três vezes na semana. "Somos todos magros e bonitos", frisa Ediotilde.
O grupo relembra que uma das irmãs, Matilde, morreu aos 80 anos, mas acredita que a morte tenha sido decorrente dos maus hábitos de vida. "Ela fumava muito. E bebia também", revela Antônio.
Os irmãos cuidam do corpo, mas sem nunca descuidar da mente. Todos eles têm em comum o gosto pela leitura. Ediotilde, Alzira e a caçula, Wanda Gonçalves Lopes, 88, que reside em Curitiba, formaram-se no magistério e foram professoras até a aposentadoria. "Eu gostava de ler bastante. Lia um livro atrás do outro, agora eu estou mais devagar", diz Alzira. Antônio também cultiva o hábito e mantém em sua casa uma ampla biblioteca com os mais variados títulos.
Até pouco tempo atrás, as panelas tomavam um bom tempo das irmãs. Alzira é doceira de mão cheia, assim como Maria de Lourdes, que transformou o talento para o preparo de compotas em profissão e deixou saudades nos antigos clientes. "Faço doce de tudo. De limão, de laranja, de figo, de abóbora", conta. "Até o ano passado eu ainda fazia meus doces, mas agora ando meio preguiçosa", diz Alzira. "Já estou com uma idade avançada. Vou ficar mais sossegada um pouco."
AFETIVIDADE E AMOR
Durante a conversa com a reportagem fica claro que nem uma boa alimentação e nem os cuidados com a mente e o corpo ou as atividades de lazer seriam suficientes se não fossem dois ingredientes essenciais na constituição dos alicerces que sustentam a trajetória da família Lopes: a afetividade e o amor. Nos quase 60 minutos de conversa com a reportagem, na casa de Antônio, as duas filhas do anfitrião, Lígia e Rosana, estiveram presentes durante todo o tempo e duas netas apareceram por lá. E é sempre assim. "A família está reunida todos os dias. Todas as noites um casal de filhos vem jantar comigo", diz Antônio, que tem quatro filhos e dez netos. "Todos os finais de semana a família se reúne aqui na casa dele. Nunca tem menos de 25 pessoas. No Natal e Ano-Novo somavam 40 parentes todos os dias", conta a filha, Lígia Lopes Ferrari. "Temos uma família linda. Estamos sempre todos reunidos", acrescenta Antônio.
Ele tem estado um pouco mais triste nos últimos dois anos e meio, desde a morte da esposa, Marlene, que era 11 anos mais jovem e com quem foi casado por 59 anos. Fez questão de continuar morando sozinho no apartamento, que permanece inalterado. Cada móvel ou objeto continua exatamente da mesma maneira que a mulher deixou. Para espantar a tristeza, além da companhia dos filhos, noras, genros e netos, se distrai com as viagens, paixão que nutriu a vida toda e mantém até hoje. Ele não recusa um convite sequer para viajar, mesmo já tendo percorrido todo o Brasil e parte do mundo. Em 2017 esteve na África e no Leste Europeu e agora se prepara para um tour pelo Chile e Argentina.
Para Alzira, que diz ter ficado viúva cedo, aos 65 anos, o grande prazer é visitar a família. Ela fala com orgulho dos dois filhos que vivem em outros estados, dos seis netos, oito bisnetos e, especialmente, da trineta que ganhou há três meses. "Ver a criançada crescendo, os netos, bisnetos, os irmãos todos unidos, é uma alegria", atesta Ediotilde, mãe de três, avó de oito e bisavó de cinco.
Respeito entre as gerações
O médico geriatra Marcos Cabrera, de Londrina, diz que a longevidade extrema acima dos 90 anos tem uma ligação muito forte com a genética. Quem tem pai e mãe que já passaram dos 90 anos, afirma o médico, tem uma grande chance de ultrapassar essa idade também. "É interessante reconhecer que a genética é muito importante, mas há muitos outros fatores importantes também e que não são associados à genética e estudos com centenários mostram isso."
Além do estilo de vida e dos hábitos alimentares, aponta Cabrera, fatores psicoafetivos influenciam na longevidade. Ele cita as Blue Zones (Zonas Azuis), que são locais no mundo onde há prevalência de idosos que ultrapassam os 100 anos de idade. Costa Rica, Itália, algumas ilhas do Japão e Grécia são alguns locais identificados por pesquisadores como propícios à longevidade.
"Identificou-se que esses países têm algumas coisas em comum. Nesses locais, os genes da longevidade são mais identificados, mas além disso, o estilo de vida e o comportamento também estão associados. São locais onde as famílias são mais sociáveis, onde os membros das famílias trabalham até uma idade mais avançada e eles têm uma alimentação saudável", explica o geriatra.
Os estudos com as Blue Zones, ressalta o médico, mostraram que a genética é muito importante, mas os núcleos familiares são grandes e há muito respeito entre as gerações. "Não é só a convivência, mas o respeito que se faz pela via do afeto", destacou. "Essas habilidades afetivas são um marcador da longevidade, que ultrapassa o impacto biológico. O gene viabiliza viver bastante, mas temos que criar uma condição para que esse gene consiga se expressar. A presença do gene no meu genótipo não me garante a longevidade, mas tem que ter um bom comportamento."
Do ponto de vista estatístico, afirma o médico, a sociabilidade é um fator mais importante do que o tabagismo na longevidade. "Cigarro é ruim sempre, mas a sociabilidade tem um impacto maior do que o cigarro. É melhor ter uma vida social intensa e fumar do que não fumar e viver na solidão."


