''Eu não vim para Londrina. Londrina é que veio depois, quando eu já estava aqui. Quando cheguei, era Patrimônio Três Bocas, em 1932''. A frase foi dita por David Dequêch, um dos primeiros comerciantes da cidade, há exatos 40 anos - em 10 de dezembro de 1969 - na FOLHA, em edição comemorativa aos 35 anos de Londrina.
Nascido no Líbano, em 1893, Dequêch era homem estudado, poliglota, e resolveu tentar a vida no Brasil no começo do século 20. Primeiro se aventurou em terras catarinenses, nas cidades de Rio Negro e Joinville. Depois, migrou para o Norte Pioneiro do Paraná, fixando-se em Cambará e, entre idas e vindas para a capital paulista, conheceu a esposa, Jamile. Quando ouviu falar que Londrina surgia forte em meio à mata do Norte Novo, cruzou o Tibagi e, finalmente, fincou raízes.
Com tino de vendedor, inaugurou o terceiro estabelecimento comercial de Londrina, como registra o jornalista Widson Schwartz em edição histórica do jornal da Associação Comercial e Industrial de Londrina (Acil) de 2007, devidamente arquivada no Museu Histórico de Londrina. No mesmo museu está a reconstituição da Casa Central, a loja do libanês que fez questão de mais tarde se naturalizar brasileiro e que vendia de tecido a pinga. ''Era uma loja sortida'', Dequêch disse à FOLHA em 1969.
Crescendo muito rápido, em 1937 Londrina já tinha uma classe comercial capaz de formar uma associação. Foi quando surgiu a Associação Comercial de Londrina (ACL), atual Acil. Junto de outros, à frente da fundação da entidade estavam os três primeiros comerciantes do lugar: Alberto Koch, Friedrich Schultheis e David Dequêch, que se tornou o primeiro presidente da associação.
Dequêch morreu em 1973, depois de presidir por 16 anos - 1937 a 1944 e 1949 a 1958 - a associação que chegou a fazer o papel da Câmara de Vereadores durante a ditadura de Getúlio Vargas, na década de 1940.
Mas a morte do patriarca não cessou o trabalho da família Dequêch na Acil. Nilo, filho de David, presidiu a entidade em dois mandatos: 1978-1979 e 1982-1983. Depois, o filho de Nilo, David Dequêch Neto, foi o presidente de 2002 a 2004.
Nascido em 1942, Nilo Dequêch tem boas recordações da infância na cidade que ainda nem era uma adolescente. ''Uma de nossas diversões era pegar rabeira nos caminhões de tora que passavam por aqui. Também éramos felizes montando em cavalos a pelo. Lembro-me também do quanto nos encantávamos com as comitivas de boiadeiros que passavam pelo meio da cidade. Nos dias de chuva, o barro tomava conta de tudo. Íamos à escola nos apoiando nos balaústres das cercas das casas, de tão escorregadio que era'', relembra.
Terceiro filho de seis irmãos, ele se formou em Direito, mas seguiu os passos do pai e também foi para o ramo comercial, trabalhando com oficina mecânica, depois com posto de combustível até assumir, em 1967, um curtume de couro de boi que funcionava às margens do Ribeirão Cambé, onde atualmente está o Lago Igapó 2. Com o crescimento da cidade e o represamento do ribeirão, o curtume foi parar no extremo oeste do município, às margens da Avenida Tirandentes, onde ele trabalha hoje junto do filho David.
Nilo também investiu em loteamentos, dando origem a três bairros na cidade e foi presidente da Cohab e secretário de serviços públicos na gestão de Wilson Moreira. Falando sobre o pioneirismo de seu pai, ele comenta que o primeiro presidente da Acil sempre acreditou que Londrina um dia seria uma cidade grande e importante - ''meu pai acreditava muito nesta terra'' - ele, que também é pai de Juliana e marido de Elenice Mortari Dequêch, finaliza exaltando que a ''Pequena Londres'' é a sua casa. ''Conheço o mundo, mas Londrina é meu endereço. Ninguém segura essa cidade'', exalta Nilo.

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