Uma espada sobre a cabeça dos Kaingang
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quarta-feira, 26 de julho de 2006
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
A aldeia Mococa, em Ortigueira, vive sob a ameaça da usina que irá transformar o Rio Tibagi em goio korég, ou água parada. A Folha acompanhou pesquisadores em uma viagem de trabalho e conversou com indígenas sobre a importância dos rios e o que pensam sobre a construção da barragem.
Um dia você acorda e vê sua cidade destruída. Os lugares que freqüentava, que contavam sua história e que você esperava mostrar aos filhos, não estão mais lá. A cena de pesadelo se aproxima da ameaça sob a qual têm vivido os Kaingang da aldeia Mococa, em Ortigueira (113 km de Apucarana). Desde que surgiu o projeto de construção da Usina Hidrelétrica Mauá, no Rio Tibagi, esse povo vislumbra a perda de seu maior referencial, fonte de alimento e tradições.
Na última semana, a Folha acompanhou pesquisadores das áreas de biologia, antropologia e arqueologia de Londrina e Maringá durante três dias de trabalho na reserva. Foi tempo suficiente para testemunhar importantes achados científicos e a relação vital entre os índios e os rios - dos quais nós, homens brancos, também dependemos para viver.
Quando se chega a Mococa, depois de percorrer os 50 km de estrada precária que separam a aldeia do perímetro urbano de Ortigueira, poucos caracteres indígenas saltam aos olhos. Algumas das antigas casas de sapé foram mantidas pelo valor histórico, mas as moradias das 29 famílias kaingang agora são de alvenaria. O lixo, que os índios se habituaram a jogar em qualquer lugar porque era essencialmente orgânico, hoje tem plástico, vidro, papel, pilhas.
É ao entrar na floresta que os moradores de Mococa reforçam sua identidade original e nos mostram por que são chamados Kaingang, ou, povo do mato. Nas trilhas de vários quilômetros que nos levam aos rios locais, nossos guias vão reconhecendo remédios verdes para os mais diversos propósitos: fraturas, sapinho, picada de cobra, até anticoncepcionais. Na aldeia a gente quase não mexe mais com isso, os remédios vem do posto de saúde. Mas eu sei fazer essa medicina do mato, aprendi com meu pai, diz Albino Fér Káng Bento, 41, agente de saúde kaingang, indicando o chá de flor de macaco para o bebê nascer com saúde.
Na corredeira do Rio Mococa, afluente do Tibagi, a tradição kaingang atinge seu ápice. Ali, acompanhamos a montagem do pari, armadilha de pesca feita com taquaras trançadas. É uma tecnologia indígena encontrada em toda a América, com registros também entre os índios ainu, no Japão, ressalta a antropóloga Kimiye Tommasino, pesquisadora de povos indígenas no sul do Brasil e integrante do grupo que visitou a aldeia.
Na Bacia do Tibagi, o pari é armado nos meses de inverno, quando os rios baixam e os peixes descem em busca de águas mais quentes. A armadilha é fixada em barragens de pedra nas corredeiras, por onde os peixes são obrigados a passar. E dá certo mesmo, comprova a ictióloga Sirlei Bennemann, que realizou um sonho ao acompanhar todo o processo da tradicional pesca indígena. Enquanto os homens armam o pari, crianças circulam entre as pedras, voam em cipós, nadam nas águas baixas do Mococa, divertem-se, livres.
O kaingang Jango Lourenço, 38, diz que o rio fornece a comida preferida dos índios, especialmente os cascudos. Não gosto de carne de branco, dá dor de barriga. Bom é peixe, tatu, quati, afirma. Kimiye confirma que o pouco de proteína animal que eles consomem vem da pesca.
Mas a natureza não é meramente utilitária para os índios. A antropóloga explica que, ao contrário do homem branco, eles mantêm uma relação horizontal com o meio ambiente, em que as plantas e os animais são como gente. Os rios, por sua vez, são valorizados em seu estado original. O rio para o índio é água pura (goio hã), não água parada (goio korég). Eles amam a água corrente, tanto que até deixam as torneiras abertas para ver a água escorrendo. Se você transforma o rio em vários lagos com uma barragem, para eles será água ruim. É todo um universo que se transforma, esclarece.
O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) apresentado ao poder público pela empresa CNEC Engenharia S/A - responsável pelo projeto de construção da usina - afirma que a aldeia Mococa não será afetada pela formação do reservatório da usina. Para a empresa, a geração de 380 megawatts de energia justifica a inundação de quase 100 quilômetros quadrados de uma das áreas de maior biodiversidade do Paraná.
Na próxima reportagem, a expedição descobre uma espécie de peixe ainda não catalogada no Rio Tibagi e material arqueológico de 12 mil anos na aldeia de Mococa.


