Uma enfermeira no front do cólera
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sábado, 18 de abril de 2009
Luciano Augusto<br>Reportagem Local 
Acostumada com toda a tecnologia embutida em um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), a enfermeira londrinense Janaina Campello, 27 anos, passou os últimos Natal e Ano Novo em um ponto qualquer da África, quase sem água e luz elétrica, tratando de doentes com cólera. A experiência vivida pela jovem idealista fez parte de uma missão humanitária da organização internacional Médicos Sem Fronteira (MSF), que presta auxílio em saúde em 80 países ao redor do mundo.
Filha da classe média, Juliana estudou Enfermagem no Centro Universitário Filadélfia (UniFil) e tinha uma vida profissional estabilizada como enfermeira de UTI móvel do Programa Paraná Urgência. Mas internamente, continuava latejando a vontade de atuar em algum organismo de ajuda humanitária fora do País, como o Médicos Sem Fronteira. Postou um currículo, foi convocada e em agosto participou da seleção: acabou fazendo parte, como única enfermeira, do grupo de 18 brasileiros aprovados entre 979 inscritos. ''Em novembro fiz treinamento na Noruega. Voltei e 10 dias depois me chamaram para uma missão, mas com uma notícia boa e outra ruim: seria um trabalho de dois meses, mas teria que partir em 10 dias para o Zimbabwe, por causa de uma epidemia de cólera''. Começava aí a jornada humanitária da brasileira na África.
A primeira escala foi na capital Harire, de cerca de 500 mil habitantes. Sua missão ficava a seis horas dali, na localidade de Birchenough Bridge, onde a população estava morrendo por causa do cólera, doença causada por uma bactéria que se aloja no estômago e provoca diarréia, vômito e cãibras. As dificuldades, admite, foram muitas. ''Tomava banho frio, quase não havia energia elétrica, dormia em um quarto com outros seis expatriados (voluntários) e com as janelas com tela por causa do mosquito da malária'', recorda. Acordava às 6h30 e só ia descansar às 23h30, sete dias por semana. A comida foi outro desafio. Os zimbabueanos se alimentam basicamente de um angu de maisena com carne de bode. Só depois de algum tempo o grupo passou a preparar outros alimentos.
O trabalho com os doentes nas clínicas (postos de saúde) também não era fácil. A epidemia adoeceu cerca de 45 mil pessoas e matou quase quatro mil em pouco mais de três meses. Faltavam até luvas descartáveis. As equipes do MSF tinham que se revezar em mais de 30 clínicas, atuando na prevenção e no tratamento dos doentes. Por causa das péssimas condições sanitárias - ''as casas não têm banheiro'' - e de hábitos culturais - como usar as mãos para comer - a bactéria se espalhava rapidamente, pois a transmissão se dá por via fecal-oral. Ela se recorda de dois casos em especial: o de uma criança de um ano e meio que ela viu morrer enquanto tentava prestar socorro; e de um adolescente que vomitou em seu jaleco. ''Graças ao irmão, que parou nosso carro no meio do caminho, ele conseguiu ajuda, ficou bom e teve alta dois dias depois.''
Em fevereiro a epidemia foi controlada e Juliana voltou para casa. Mas deixou para trás muitos amigos. ''O povo de lá foi o que mais me marcou. Mesmo numa situação precária, com 20% da população HIV positiva, estão sempre rindo, felizes, disponíveis. Por ser brasileira, acabamos nos identificando muito'', celebra a enfermeira, que se prepara para sua próxima missão: no final deste mês embarca para Moçambique, também na África, onde fará parte de um projeto de prevenção materno-fetal de HIV por, pelo menos, um ano. ''Em muitos lugares, somos a única ajuda. No Zimbabwe, se não estivéssemos ali, tinha morrido muito mais gente.''
SERVIÇO: Quem quiser saber mais sobre os ''Médicos Sem Fronteira'' pode acessar o site www.msf.org.br.


